17.6.09

CRÓNICA DA SEMANA (I)

Há um coro de protestos, provenientes de vários quadrantes, sobre a verba que o Real Madrid vai pagar pelo passe do futebolista Cristiano Ronaldo. E estou seguro de que muita gente, que me lê ou ouve neste momento, estará a pensar como outro futebolista, Luís Figo, que afirmou ser vergonhoso, num tempo de crise, gastar esse dinheiro com um jogador de futebol. E, com efeito, a nossa consciência sente-se apertada ao ver um clube de futebol pagar 20 milhões de contos só para ter, antes do tempo, um jogador nas suas fileiras. É quase um insulto para a quantidade de pessoas que, na Europa, passam dificuldades, embora possam ser tão habilidosas e perfeitas no seu trabalho como Cristiano Ronaldo o é no seu.

No entanto, as coisas não são assim tão simples. E é necessário perguntar porque é que isto sucede. Se pensarmos um instante apenas, vemos que o futebol não acrescenta nada à riqueza da humanidade. É um jogo, na medida em que o resultado final está dependente, em alguma medida, da sorte. Costuma também dizer-se que é um desporto. Mas desporto é uma actividade destinada a melhorar as condições físicas do ser humano e no futebol, hoje em dia, nem de perto nem de longe esse é o objectivo, nem sequer secundário. O futebol não é, hoje, mais do que um grande negócio, porventura o negócio que mais lucrou com a globalização. De algum modo, é um negócio que tem, pelo meio, a compra e venda de direitos sobre seres humanos. Não obstante isso, o futebol exerce um fascínio imenso sobre multidões em todo o mundo. E os industriais desse jogo – os seus dirigentes – perceberam que têm um produto de consumo universal, pelo qual as pessoas estão dispostas a pagar, mesmo que o que pagam para comprar o produto absorva, por vezes, o dinheiro necessário para uma refeição da família.

Sendo assim, não podemos censurar tais industriais de investirem naqueles que tornam o produto mais atractivo e, por isso, mais vendável. Se temos que censurar alguém pelas quantias astronómicas que circulam no mundo do futebol são as multidões que enchem os campos do futebol ou que, pelo menos, estão disponíveis para ficar a olhar, durante hora e meia, para um ecran de televisão onde vinte e dois jogadores andam aos pontapés numa bola, com o objectivo simples de a encaminhar para determinado sítio.

É ridículo, isto, dito deste modo. Mas á a realidade. E a culpa não é de um qualquer dirigente de um clube de futebol, do Real Madrid ou outro. Como qualquer bom empresário, ele está convencido de que vai ganhar mais dinheiro a vender o produto do que aquilo que teve que pagar pelo factor de produção que adquiriu. Fica, porém, uma outra certeza. É que, seguramente, os impostos que os Estados fazem incidir no negócio do futebol são obviamente muito baixos. É muito barato o dinheiro usado no futebol.

Crónica DINHEIRO BARATO - Magalhães Pinto - MATOSINHOS HOJE - 16/6/2009

1 comentário:

  1. Nem leio. Estou farta de ouvir falar deste ganapo. E quando penso que um dia de trabalho dele (mesmo que não faça nada) me resolvia montes de problemas, fico pior que estragada. Acho estes valores são uma afronta.
    Adiante...

    Beijinho

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