...Imagine, por fim, o meu Caro Leitor que vive numa comunidade em que há dois ou três princípios fundamentais. Primeiro, respeitar a comunidade na qual vive. Segundo, saber perfeitamente os seus direitos e os dos outros - o Estado esclarece-o conveniente e profusamente - e esperar que toda a comunidade os respeite na mesma medida em que respeita os direitos dos outros. Terceiro, quase um corolário, saber exactamente como deve agir em qualquer circunstância e viver de acordo com esse conhecimento. Ter o cuidado com a sua saúde adjudicado a um médico por si escolhido de uma lista que lhe propõem e, geralmente, a viver perto da sua casa. Sentir-se seguro a qualquer hora do dia ou da noite. Ter o acesso aos estudos garantido de acordo com o seu aproveitamento. Ver os tribunais funcionarem com eficiência e muito depressa.
Imagine tudo isso, meu Caro Leitor. Pense ainda que tudo isso acontece quase sem ver um polícia. Mas que, se prevaricar e for apanhado paga com os olhos da cara a infracção que cometa. Pense que toda gente que receba dinheiro de si - desde o pagamento de um café até à compra do serviço mais inocente e imperceptível que seja - lhe passa um recibo sem ter necessidade de o pedir. Pense que todas as casas estão avaliadas, para efeitos fiscais, pela autarquia onde se inserem. Pense que tem um número que simultâneamente serve como bilhete de identidade, contribuinte, eleitor e segurança social (número construído, aliás, muito engenhosamente, de modo a que nunca se esqueça, composto pela data do seu nascimento seguido de quatro algarismos). Pense nisso tudo, imagine isso tudo e diga-me, com franqueza:
- Não gostava de viver numa comunidade assim?
...
Parece-me estar a ouvir as suas respostas. Parece-me estar a ouvi-lo perguntar: "porque é que esse lugar não é o meu?". Parece-me estar a ouvi-lo dizer: "mas isso acontece na Europa a que dizem que eu pertenço?", É verdade, meu Caro Leitor. É na Europa a que Você pertence. Mas a que Você pertence apenas nos papéis, incluindo os mapas. Porque, de resto, meu Caro Leitor, esta é a Europa da qual Você está cada vez mais longe. Veja que até essa coisa simples de todos termos um número único, que sirva para todas as coisas, foi recusado no Parlamento. Nem nos próximos quinhentos anos Você estará nessa Europa, meu Caro Leitor. Por uma razão simples. Nem os governantes, nem os deputados, nem os religiosos, nem nós, sobretudo NÓS, cidadãos, querem tal. Bastava querer e numa geração púnhamo-nos junto a eles. Assim, só nos fica esta admiração por um povo que soube organizar-se, acompanhada do sabor amargo, já não digo da inveja, mas da nostalgia de um viver assim. Como se vive na Dinamarca. Um país que nem por fazer viver bem os seus cidadãos deixou de ser competitivo.
Excertos da crónica IMAGINE - Magalhães Pinto - VIDA ECONÓMICA - 8/7/2003
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