(continuação)Demorou a adormecer, pensamento revolto por mil e um argumentos de recusa à saída da manhã. Mas a todos renegara pelo falso a que soavam. Num torpor que não chegava a ser sonho, viu-se só, no meio dum mangal, arma aperrada, olhando desvairado em todas as direcções. Subitamente, os mangueiros metamorfosearam-se numa multidão de estropiados e mães de filhos ao colo que, cercando-o, se foram aproximando dele. Corpos horrorosamente mutilados, uns sem braços, outros sem pernas, alguns sem cabeça, avançavam para ele, cada vez mais próximos. Ele gritava por socorro, mas os seus gritos eram abafados pelo choro das crianças ao colo das mães. Em desespero, Mário apertava o gatilho mas do bocal da arma apenas saíam golfadas de sangue. Estavam cada vez mais próximos. Procurou, inutilmente, romper a barreira que o cercava. Mas aquela massa de gente era gelatinosa e repelia-o a cada encontrão, fazendo-o cair na poça do sangue saído da sua arma, quente, viscoso. Até que o submergiram. Estava prestes a desfalecer, asfixiado, quando despertou do torpor, alagado em suor.
Não pregou mais olho e viu os primeiros alvores do dia entrarem na camarata. Antes da saída, jurou a si próprio que regressaria a Portugal. Desgraçado de qualquer preto, armado ou não, se lhe aparecesse pela frente. Podia encomendar a alma ao demónio!
(continua)
Magalhães Pinto
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