10.9.08

MEMÓRIA

Há muito tempo que não falava com o meu primo Calisto. Com meu prejuízo. Deixei de ter, assim, acesso à sabedoria simples dos que estão a milhas da realidade encenada por políticos, sindicatos, associações patronais, polícias e ladrões. Deixei de poder contar com o seu bom senso, feito de pão pão, queijo queijo. Perdido entre as montanhas, o Calisto só vê a essência das coisas, não os pormenores. Isto quando não há incêndios florestais lá para os seus lados. Quando há, vê tanto como os outros, isto é, nada. Já andava esquecido dele. Mas num desses dias cinzentos de um Junho a cheirar a Janeiro, o correio trouxe-me uma carta dele. Um pouquito longa. Muito pouco própria do meu primo, que é homem de dizer em três palavras o que um aluno do décimo segundo ano de escolaridade escreve num livro inteiro. Cheguei até a pensar que o dianho do Calisto tinha decidido minutar o seu testamento e dele me fazer seu fiel depositário. Mas não. Parece que as saudades foram mais fortes nele do que em mim. E lá roubou um tempito aos cuidados da horta e dos bichos para me escrever. Logo que acabei de ler a carta, pensei comentá-la aqui. Mas, depois de breve reflexão, achei melhor reproduzi-la simplesmente e deixar ao meu Leitor o comentário devido. Aqui vai ela.

“Meu estimado primo,
Espero que ao receberes esta estejas de boa saúde que nós por cá vamos assim assim. A tua prima Crisalda anda com dores nas cruzes e muito preocupada com essa história de fecharem as maternidades, por mais que eu lhe diga que isso já não é assunto dela. Nem meu, que só me endireito com grande sacrifício. Isto depois de colher umas couvitas galegas, porque se for para apanhar cenouras já tenho que me ajoelhar.

Por falar em maternidades, primo, não achas que os homens tiveram um galo dos diabos? Eu só ouvi pela televisão falar no caso. Mas aquela de morrer logo um dos primeiros miúdos na viagem para a maternidade vizinha foi muito azar. Vizinha é um modo de dizer. Sabes que aqui estamos habituados a medir as distâncias em léguas. Logo, somos muito mais vizinhos do que vocês aí. Devo dizer-te que achei muito bem o tal fecho das maternidades. Antes de tu nasceres, as crianças às vezes até nasciam nos campos, com a mãe a desenrascar-se sozinha no meio de uma monda. Isso das maternidades foi um luxo que inventaram só para nos pedirem mais impostos. Só há uma coisa que eu não entendo, ó primo. Abriram as maternidades e vieram sacar-nos mais impostos para isso. Agora fecham-nas mas continuam a sacar-nos. Eu até ia a escrever sacanearam-nos. Mas é a minha falta de jeito para escrever, primo. No dia a seguir, o Ministro veio dizer que abriu um inquérito para saber de que morreu o bebé. Como se a gente não soubesse já que morreu de morte natural. Alguém será capaz de pensar que o bombeiro que assistiu a mão ia estrangular o bebé? Olha, eu conheço aqui o Zé da Cortinha, que é bombeiro na vila, e que seria bem incapaz de fazer tal coisa. Não acredito nos resultados desse inquérito, sejam eles quais forem. Isto se houver resultados. Para mim, esse anúncio foi só o Ministro a enganar-nos, dizendo que se interessava muito pela saúde dos bebés e das mães. Se não acreditas, primo, vê o que ele disse, logo a seguir, a propósito do outro bebé que morreu em Espanha. Houve mosquitos por cordas para trazer o bebé. Ou melhor, o que restava dele. Tudo porque aqueles sem vergonha dos castelhanos dizem que uma criança só é pessoa depois de passadas vinte e quatro horas de nascer. Eu explico-te. Uma crianças nasce às três horas da tarde. Até às três horas do dia seguinte é uma coisa, não é gente. Só às três horas e um minuto do dia seguinte é que passa a ser gente. Depois de, pelo menos, três mamadas. Vê-se bem que Portugal e a Espanha não são a mesma coisa nesta história de mamar. Aqui, dá-se tanta importância ao mamar, que quase não se pode ser gente sem mamar mas onde, depois da primeira mamada, já se é gente. Bom. Mas eu estava a falar do que falou o Ministro da Saúde. O tal que mandou fechar as maternidades. Disse ele que a vinda do bebé morto para Portugal não era um problema de saúde, era um problema de Registo Civil. Uma afirmação destas, primo, é de quem tem olhinhos. Ninguém o ensaboa, especialmente esses jornalistas de caca que andam sempre a ver se os Ministros fazem fora do pote. Claro que não é um problema de saúde! Então se o bebé já estava morto! Saúde é coisa que só existe enquanto se está vivo. Isto é, existe ou não existe. Depois de morto, chapéu! Não há saúde nem ministro nem ministro da dita que nos valha. Portanto, tem o senhor Ministro muita razão. Já lhe bastam os problemas que tem com estes desgraçados que passam a vida a dar cabo da saúde e, depois, viram,se para o Ministro a dizerem que precisam de médicos, de enfermeiros, de hospitais e de medicamentos baratos. Que se cuidem! Não foi o Ministro que os pôs doentes. Comem carne de porco, manteiga, amburgueres e pizas, bebem que se fartam e ainda por cima fumam e, depois, ai Jesus que o Ministro não lhes cuida da saúde. Pois que se ponham a pau! Se continuam assim a irritar o Ministro, tenho a certeza de que ele lhes vai tratar da saúde. Aliás, na minha opinião, já começou.

Mas não foi por isso que te escrevi, primo. É que preciso que me expliques uma coisa. Aqui o presidente da minha junta veio-me com uma que eu não sei se é verdade. Disse-me ele que a Câmara vai poder agora ficar com uma parte dos meus impostos e que vai poder baixá-los. Chama ele a isso concorrência fiscal entre municípios. Quando ele me disse que a Câmara vai poder baixar os meus impostos, eu fiquei muito desconfiado, primo. Olha, tanto quanto sei, a Câmara pode pôr o imposto que cobra aqui sobre o meu casebre mais alto ou mais baixo. E, até hoje, tem sempre cobrado o mais alto. Depois, sobre uns ganhitos aqui da minha exploração agro-pecuária, ela pode lançar ou não, maior ou menor, um imposto que se chama derrama. E lança sempre pelo máximo. Aliás, em quaisquer desses impostos de nada me serve a concorrência fiscal, ou lá o que é, com outro município. Já viste o que era eu levar os meus porcos para a Praça do Giraldo em Évora? Não posso. Ou mudar a minha casa para Alvalade em Lisboa? Não posso. Por isso, estou muito desconfiado. A meu ver, o que estão a fazer é a criar condições para que, além de pagar os meus impostos ao Estado, eu agora duplique o pagamento, pagando também para a Câmara ou para a Junta. Queria que me desses notícias sobre isto. Quero ver se durmo descansado, agora que estou a ver que quando chegar a hora da minha pensão, devem pagar-ma para aí com um quilito de bacalhau.

Esta já vai longa, primo. Para terminar, só queria pedir-te desde já uma coisa. Como sabes, tenho aqui o carrito que comprei quando vendi o campo das traseiras. Tenho pedido sempre à junta que me traga o selito da vila. Mas disse-me o presidente que, para o ano, tenho que pagá-lo pelo computador. E, como sabes, primo, eu já não estou em idade para essas modernices. E, aliás, não tenho escolha. Ou vendo o carro para comprar o computador, mas nessa altura já não preciso do computador. Ou não pago o selo e um dia a multa vem; e, para a pagar, lá tenho que vender o carro, mas já não preciso do selo. E o carro está um traste tão velho que eu acho que quem me comprar o carro já não me paga o selo. Ou então… deixa. Isto está a ficar muito complicado. É melhor eu pôr o carro a arrastar a charrua nos campos. Chamo-lhe tractor e já não terei que pagar o selo. Um abraço, primo. Manda notícias. Ou passa por aqui. Haverá sempre uma tira de presunto para ti. Para já, ainda não paga imposto. Aproveita enquanto é tempo. E até porque agora que proibiram de fumar por fazer mal à saúde, qualquer dia também proíbem o presunto. Do teu estimado Calisto.”.

Vou ver se encontro resposta para a questão do meu primo. Mas estou tão habituado a confiar na sua intuição que acho mesmo que ele tem razão. Sabe mais ele com os olhos fechados do que eu com eles abertos.

Crónica O MEU PRIMO CALISTO - Magalhães Pinto - VIDA ECONÓMICA - 20/6/2006

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