...3ª. Ideia:
“Antigamente, ainda havia um militar que punha esses senhores de gravata na ordem. Agora, já nem isso há! Da direita à esquerda não confio em ninguém.”
Esta é a parte mais assustadora. De que este caso não é a única revelação. Aliás, percebia-se no modo como isto foi dito que não estávamos a ouvir um qualquer saudosista dos tempos idos. Bem pelo contrário. Já só se vê a defender abertamente a democracia alguns saudosistas das lutas de antanho. Os desencantados com o regime são cada vez mais numerosos. Os descrentes nos políticos são a terra onde as ideias totalitárias florescem. Se tivéssemos dado o passo que faltava para o pânico, só daí sairíamos, muito provavelmente, com uma ditadura. Desenganem-se os que acreditam que a democracia está de pedra e cal. Já os Gregos clássicos pensavam assim e a História está cheia de ditaduras de então para cá.
***
Há que inverter este caminho. Há que procurar cuidar mais do cidadão individual, ajustando o modo como ele vive aos recursos disponíveis. A cantilena de que temos que fazer coisas grandiosas para potenciar a capacidade de viver melhor no futuro é enganadora. O futuro é um sítio onde nunca se chega. A arte de um bom orçamento tem que residir na adaptação dos recursos do país às necessidades dos cidadãos. Não queremos que alguns iluminados – os que governam – decidam por nós o futuro que pretendem. Enquanto cidadão eu quero não hipotecar o futuro tendo ao mesmo tempo uma vida decente no presente. Não quero ser a calçada onde o futuro se passeará. Até porque, quando chegarmos a esse futuro – isto é, nunca – a calçada vai provavelmente ser alcatroada pelos que então viverem.
É por isso que a discussão do OGE, com as premissas e nas condições em que é feita, é uma estupidez sem paralelo. A discussão está inquinada à partida. Quem pensa o que se vai fazer é o Governo. Tem a certeza da aprovação pela maioria de apoio de que dispõe na Assembleia da República. Isto é, uma trintena de sumidades – e isto se os secretários de Estado tiverem voz na matéria – decide do “futuro” de dez milhões. Dir-me-ão: pois, mas a maioria dos portugueses quis assim. O que não invalida um milímetro ao tamanho da razão contida na afirmação. O que nos conduz a esta ideia, a quarta, não já do cidadão anónimo que eu ouvi enquanto conduzia: este tipo de democracia está doente e, provavelmente, já não há mezinha que a cure. Esperem só pela crise económica – essa bem mais real – que se vai seguir a este alarme todo que acabámos de viver. O sofrimento, deste vez real e só marginalmente psicológico, vai ser maior. E, entretanto, os cavalos continuarão a trabalhar para dar cumprimento à vontade dos iluminados com que o Senhor nos dotou.
Excerto da crónica OS CAVALOS - Magalhães Pinto - VIDA ECONÓMICA - 15/10/2008
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