A nossa língua é linda. E riquíssima. Tem, por vezes, expressões deliciosas. Imagens coloridas na forma de verbo. Dignas de figurarem, quais obras-primas, ao lado de uma qualquer tela de Rembrandt ou Goya. Não sei se, um dia, me chegará o tempo para o extenso trabalho de investigação - e correspondente publicação - de uma colectânea das inúmeras expressões da nossa língua cujo significado nada tem a ver com o que as palavras querem dizer. "Toma, que já almoçaste!". "Põe-te na alheta!". "Põe-te a pau!". "Tira a mão do prato!". "Dar às de Vila Diogo". "Pernas p'ra que vos quero!". "Mete a viola no saco!". "Sete cães a um osso". "Armado em carapau de corrida!". Bom, é melhor não avançar por aqui, senão "adeus viola!". A minha crónica "não passará da cepa torta". Recordo, aliás, com um sorriso, aquele episódio de um fornecedor inglês, a visitar um comerciante do Porto, com o qual entrou em conflito. A certa altura, recebeu do comerciante furibundo a bem portuguesa exclamação "ou se vai embora ou eu ponho-o já no meio da rua!". O que deixou o pobre inglês, pouco sabedor das minudências da nossa língua, perplexo e a murmurar, na sua, uma interrogação essencial, enquanto abandonava o estabelecimento: "why just in the middle?… why just in the middle?…" ("porquê exactamente no meio?).Pois bem. Há cerca de uma semana, foi uma expressão dessas que me assaltou, ao ler uma entrevista do Presidente da Casa da Música, no Porto, Rui Amaral, sobre a obra de que é, presentemente, mestre. Por direitos políticos de sucessão, subsequente a uma distinta senhora, subitamente caída no esquecimento, de seu nome Teresa Lago. "Está a dar-me música, este!", foi o meu pensamento, quiçá nefando. Tal como, "se bem me lembro", já tinha pensado ao tempo da "velha senhora", sem intentos pejorativos para a ex-monarca daquela "coisa" que está a nascer na Boavista, em trabalho de parto extremamente difícil. E a razão do meu pensamento musical tinha a ver com meia dúzia de ideias expressas pelo Presidente.
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Não é só música que Rui Amaral nos está a dar. Isto é um autêntico concerto sinfónico. O que até é capaz de corresponder a uma vocação. A entrevista que li, e que se esperaria contivesse ideias seguras de quem tem a responsabilidade de tratar do "elefante", não passa, todavia, de um amontoado de notas soltas. Para usar uma das tais expressões, é "um molho de bróculos". Para além das contradições aparentes, que nos impedem de fazer uma ideia clara daquilo que é pago, fundamentalmente, com o NOSSO dinheiro, de como vai ser o futuro, de quanto vamos ter que pagar mais, não apenas durante a construção mas também depois, com o seu funcionamento, o Presidente mostra um profundo desprezo pelo dinheiro dos Contribuintes. Em vários momentos da sua entrevista. Vai custar "só" o dobro do previsto? A relação qualidade/preço é excelente! Vai ser um elefante branco? Que importa? Portugal já tem muitos, é apenas mais um!
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Excertos da crónica DAR MÚSICA - Magalhães Pinto - POLISCÓPIO - 20/4/2003
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