...Estou a falar do trabalho temporário de trabalhadores portugueses no estrangeiro. Portugal é um país exportador de mão-de-obra. Hoje, de modo diferente do que se passou por meados do século passado. Há inúmeras empresas portuguesas, legais, legítimas, honradas, fiscalmente impecáveis, contribuintes para o Produto Interno, geradores de emprego assinalável, que fazem dessa actividade o seu modo de vida. Cerca de 70.000 trabalhadores portugueses dão o seu trabalho no exterior do país, porque há empresas que conhecem o mercado, que têm as suas redes de distribuição, que fazem a ponte entre as necessidades de trabalho, geralmente especializado, existentes no exterior, e os trabalhadores portugueses capazes de satisfazer essas necessidades. Estou a falar apenas das empresas “legais”, excluindo as clandestinas, que também as há. E onde estas últimas transportam os trabalhadores em carradas por via terrestre, os “hospedam” em contentores, muitas vezes não lhes pagam ou, quando lhes pagam, os respectivos rendimentos escapam ao fisco e à segurança social, e lhes permitem comer, pelo que lhes pagam, umas batatas mal amanhadas, as primeiras transportam os seus trabalhadores de avião, hospedam-nos em hotéis ou pensões que, não sendo de luxo, são todavia dignos da natureza humana, e, acima de tudo, pagam-lhes ajudas de custo que permitem aos trabalhadores comerem decentemente. Enfim, estamos perante gente séria e cumpridora, que paga religiosamente os seus impostos. Naturalmente, ganham alguma coisa com o seu trabalho de intermediação, tais empresas. Mas também sobre isso pagam os seus impostos. Em suma, estamos diante de empresas úteis à economia nacional, diante de trabalhadores úteis ao seu país, diante de uma actividade económica meritória. A pedir tratamento justo, que de outra coisa não tratamos aqui.
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Há, em tudo isto, má consciência do Governo. Não pode entender-se de outro modo que o canal da televisão paga com o nosso dinheiro mas na qual o Governo é que manda - RTP – tenha feito uma reportagem sobre este assunto no final de Dezembro de 2008, a qual ainda não passou, apesar de toda a pressão que, legitimamente, as empresas do sector têm feito. E não pode entender-se de outro modo porque um canal de televisão que se preocupa com o despedimento de mil trabalhadores, aí numa empresa qualquer, relativamente à qual o Ministro surge apressado a dizer que vai tentar evitar despedimento, não podia ficar indiferente ao “despedimento” de 70.000 trabalhadores que o Governo se prepara para fazer. E ficou. Se não houve uma “ordem superior” para não passar a reportagem, até parece que houve. Despedimento que terá, por acréscimo, uma outra consequência nefasta. Esses trabalhadores, até aqui a gerarem impostos e contribuições para a Segurança Social, isto é, produtores de receita para o Estado, passarão a viver do subsídio de desemprego, provocando, assim, despesa. Mas talvez este Governo prefira assim. Que os trabalhadores vivam dos subsídios que ele paga. Ainda que não produzam nada. Está na altura de um outro canal de TV, privado, interessado no bem-estar nacional, se debruçar sobre este assunto, dando-lhe a amplitude que ele verdadeiramente merece. A irresponsabilidade, a incompetência e a arrogância não podem conduzir este país para a cova.
Excertos da crónica TRABALHO FORA DO PAÍS - Magalhães Pinto - VIDA ECONÓMICA - 6/2/2009
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