...Agora, os tempos são difíceis. Sabemo-lo todos. Não apenas devido à propalada crise. Mas também porque, no mundo globalizado em que vivemos, a qualidade do produto primeiro a que se dedicou – a cortiça – já não é tão apreciada, apreciação vencida pelos cifrões. E tais dificuldades exigem uma redobrada atenção à gestão. A todos os custos. Também aos custos com os recursos humanos. E, por isso, é que surgiu para aí a notícia de que o seu Grupo ia dispensar – isto é, enviar para a situação de desemprego – cerca de duas centenas de pessoas. Bom, o senhor nunca esteve desempregado. E nunca sentiu na pele o desespero, a desmoralização, que tal significa. Mas, uma vez mais, sabe. Sabe tão bem que até, caso único, se preocupou com o estabelecimento de regras destinadas a reduzir tal sofrimento. Não sentiu o que é acordar de manhã e não saber para onde ir. Já não é o problema do rendimento, do salário. O Fundo de Desemprego encarrega-se de resolver isso nos primeiros tempos. Mas é a sensação de inutilidade, que aniquila um homem ou uma mulher. É olhar para os filhos com a vergonha de não ter que fazer. Cair no desemprego é morrer metade.
Quando li a notícia, o meu primeiro pensamento foi o de que ainda ninguém tinha falado com o senhor. Não podia ter sido. As suas qualidades humanas não iam proteger uma pequena fracção da sua riqueza à custa da infelicidade de duas de pessoas. Sei que o senhor, mesmo que isso representasse uma pequena ameaça à sua qualidade de homem mais rico de Portugal, não iria construir a sua “felicidade” sobre tijolos de infelicidade dos outros. Nunca o fez, não seria agora que o faria. Mesmo que nada, do ponto de vista legal, o forçasse a isso, que é o caso.
Por isso, e só por isso, é que me decidi a escrever-lhe esta carta. Esteja seguro, senhor Américo Amorim, que eu não acredito que alguém fará isso no seu Grupo. Só poderiam fazê-lo nas suas costas. Porque o senhor sabe que a riqueza moral é muito mais preciosa do que a riqueza material. Porque enquanto esta vai e vem com os alcatruzes da nora, aquela fica para sempre, indestrutível, inapagável, a ornar a grandeza de alguém que soube sempre construir e que é incapaz de destruir. Especialmente uma pessoa.
Excerto da crónica CARTA A UM SENHOR - Magalhães Pinto - VIDA ECONÓMICA - 10/2/2009
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