Sinto-me nas vésperas de ser a pessoa mais importante do mundo. Com três eleições à porta, vou ter os grandes deste pequeno país a mendigarem o meu pequeno voto. Vou ficar rico de promessas. Vou ter empregos aos milhões à minha espera. Vou ter obras de encher o olho. Vou ter o abono de família aumentado. Vou ter a pensão revista. Nunca mais vou ter que esperar dois anos por uma consulta de oftalmologia. Os chumbos escolares vbão ser proibidos até à pós-graduação. É bem provável que me devolvam o que me roubaram no preço dos combustíveis no último ano. Vão voltar a meter os criminosos na prisão. Vou ter um polícia atrás de mim como guarda-costas e a ronda policial na minha área vai passar por lá dez vezes ao dia. O IRS que pago vai ter novos e mais baixos escalões. Até pode acontecer que me prometam não pagar impostos lá para 2025. No meio de tudo isto, até pode acontecer que o Senhor Presidente da República apareça na praça a dizer “se eu conseguir que esta coisa se mantenha estável, podes bem ter tudo isso”. Tudo isso! Ao preço da uva mijona. É só pôr uma cruz no sítio adequado. Quem dá mais? Quem dá mais? Só há um pequeno problema. Eu não quero nada disso. Por uma razão simples. Porque sei que não me darão nada disso. Quero outra coisa. Se me prometerem outra coisa, é bem provável que eu venda o meu voto a quem o prometer.Nas últimas três semanas, falei aqui de ética, de liberdade e de responsabilidade. Creio ter demonstrado um axioma (que, por definição, não precisa de demonstração). O de que não vamos a lado nenhum sem reformar o regime. Uma reforma que tem que vir de dentro do actual regime. Eu não quero riqueza. Quero ética. Quero liberdade. Quero responsabilidade. Quero que me governem com ética, respeitando a minha vontade democrática, assumindo a responsabilidade disso quem tiver a autoridade. Com a certeza de que, se tal acontecer, tudo o mais virá por acréscimo. Rasguem a actual Constituição e façam outra. A actual Constituição perdeu-nos. Parece uma Bíblia e não conta para nada. Permite todos os desmandos. Quero-a mais simples. Uma constituição que permita, mais, que obrigue a que se faça o que vou dizer em seguida. Se não me prometerem nada disso, pela primeira vez desde a Manhã de Abril, não contem com a minha cruz. Vou lá, ao sítio. Mas recusar-me-ei a pôr uma cruz seja onde for. Ou alguém se propõe criar as condições que exijo – eis uma das consequências da liberdade, posso exigir – ou não venderei o meu voto.
Eis o que quero.
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3.- Voto nulo é uma coisa. Abstenção é outra. Voto branco ainda outra. O voto nulo é um zero, não significa nada. A abstenção diz que qualquer um serve. O voto branco diz que nenhum serve. Quero respeito pela minha decisão. Se eu votar branco, quero que a respectiva cadeira, no Parlamento ou na Assembleia paroquial, fique vazia.
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Não se pode dizer que eu sou muito exigente. E até sou muito paciente. Estou disponível para vender o meu voto a quem se proponha realizar, pelo menos, 25% daquilo que quero. Roma e Pavia não se fizeram num dia e eu até nem sou romano ou pavio. O problema maior que vejo é que, se calhar, só eu quero isto. E, se assim for, ninguém ligará ao que digo. Mas, se fôssemos uns milhares, se apresentássemos isto como reivindicação pública, agora, antes de eleições, com milhares de assinaturas, talvez a coisa assustasse quem se vai apresentar às ditas. E talvez surgisse candidato que subscrevesse o pedido. Ainda não seria a resolução de todos os nossos problemas. Mas lá que estaríamos a dar um passo de gigante para os resolver, estou convencido de que seria.
Excertos da crónica O LEILÃO DO VOTO - Magalhães Pinto - VIDA ECONÓMICA - 12/3/2009
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