14.5.09

MEMÓRIA

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Lêem-se os jornais. À procura das notícias de manifestações populares, de reivindicação. Seja do que seja. Não vá estar aí parte da explicação. Desde que as reivindicações fossem atendidas. Não se encontra uma. Parece que, em Espanha, não há protestos. Os únicos protestantes com direito a notícia são os políticos. Por razões estrictamente políticos. Porque A falou com a ETA. Porque B usou a conversa com a ETA como arma política. Os taxistas também têm opinião sobre isso. Não é muito importante para aqui. É só vida de políticos. Há que trabalhar, primeiro. Depois, nas urnas, logo se verá quem tem razão sobre essas questões meramente políticas. Todavia importantes, num outro plano.

É isso. Seriedade. Trabalho. Esforço de produzir. Com a noção perfeita de que não há riqueza para ninguém se esta não for produzida. E que só o trabalho esforçado, a todos os níveis da sociedade, é capaz de a enriquecer. Surpreendentemente, verifico que os madrilenos começam o fim de semana às duas da tarde de sexta-feira. Isto é. Nem precisam de tanto tempo como, por exemplo, nós os portugueses para serem felizes. Chegam-me a Madrid os ecos dos protestos em Portugal. Inúmeros. Quase generalizados. Portugal é um país de protesto, não é um país de trabalho. Protesta-se por tudo e por nada. Os portugueses interiorizaram já que o que resolve os problemas é uma câmara de televisão à frente. Felizes, as televisões alimentam o erro. A infelicidade dos outros é o seu share nas audiências. E o share nas audiências define o rendimento da publicidade. Mas a publicidade não produz. Os protestos não produzem. Isto é, a riqueza cada vez é menos. Para agravar o fenómeno, aparecem por aí tontos a convidar as pessoas para a rua, para mais protestos. São tontos que se ficaram, sem evolução, nos idos de setenta e cinco. Cadáveres adiados, incapazes de analisar um simples problema económico de troca de laranjas por azeitonas, precisam da revolução permanente para parecerem sobreviver. Sabem que daquela atitude permanentemente reivindicativa, pouco cuidada com a produção, só pode resultar, governe quem governe, maior pobreza amanhã. Para eles é igual, Ajudam a construir a tragédia futura com o mesmo impudor com que seriam capazes de calcar a bandeira nacional com os pés, fossem quais fossem as razões. É geralmente gente que vive no conforto de instituições construídas com milhares de contos dos nossos impostos. Dados por governos amigos. Os quais, por isso mesmo, não são reaccionários. São apenas perdulários

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Excerto da crónica O CASAMENTO IMPOSSÍVEL - Magalhães Pinto - VIDA ECONÓMICA - 1/2/2004

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