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9.9.07

PERGUNTAS SEM RESPOSTA


Quantos estrangeiros suspeitos de crime de morte abandonaram até hoje o nosso país depois de constituídos arguido?

OS HERÓIS E O MEDO - 21º. fascículo

(continuação)

Insistiu na ligação para casa. Desta vez atendida. Pela mulher, regressada do jantar. Por ela ficou a saber da vontade da Ana Maria Pestana em envolver-se mais no Movimento Nacional Feminino. O exemplo da Cilinha começava a dar frutos. Já se contavam por milhares as aderentes. Ora aí estava uma boa oportunidade para tu te ocupares um pouco também, Amélia. Porque é que não ajudas?

Enquanto a mulher ia desfiando as contas do jantar, o tenente-coronel Soveral avaliava o conselho acabado de dar. A Amélia não tinha jeito para essas coisas. Servir de apoio moral a soldados em véspera de partida para o Ultramar era uma coisa. Mas visitar as famílias dos que morreram ou ficaram estropiados era outra, completamente diferente. Ninguém gosta de ser mensageiro da desgraça e ver nos olhos dos desgraçados não se sabe se inveja do anunciante, se raiva pelo filho morto ou estragado. Aquilo não era tarefa para aquele coração de ouro que se tornara sua mulher. Estava bem para a energia indomável, para o dinamismo, da Lucília Supico Pinto, a quem os militares – e os amigos – chamavam carinhosamente de Cilinha. Tinha sido providencial o seu aparecimento. Tinha sido ela a suprir as deficiências do país, impreparado para uma guerra, para as necessidades de apoio moral aos soldados e às suas famílias. Tanto dos que apenas estavam separados durante dois anos, mas também e principalmente às famílias dos que morriam no campo de batalha ou dele regressavam estropiados.

(continua)
Magalhães Pinto

SORRISO DO DIA

Há sempre alguém disponível para arruinar uma fotografia...

8.9.07

Phantom of the Opera- Sarah Brightman and Steve Harley

PENSAMENTO DO DIA




Bin Laden já bateu Jesus Cristo em número de ressurreições, o que será, porventura, mais um factor de orgulho religioso para a Al-Qaeda.

FIGURA DO DIA

Kate McCann, mãe de Maddie. De bestial a besta. E ainda não se sabe a verdade.

FRASE DO DIA

"Vamos ter que importar engenheiros da China, da Coreia ou da Índia."

Graça Rasteiro - Vice-Presidente da Comissão Organizadora da Conferência Internacional sobre o Ensino da Enegnheira - "EXPRESSO" - 8/9/2007

***

Dada a facilidade com que se é engenheiro em Portugal, quem diria?

PERGUNTAS SEM RESPOSTA



Depois da acusação de incendiária a que foi submetida, não será Carolina Salgado a principal responsável pelos fogos florestais?

OS HERÓIS E O MEDO - 20º. fascículo

(continuação)

Malditos pés, inchados. Aliviou os cordões das botas e sentou-se à secretária, algo tosca, desarrumada a um canto do quarto. E folheou distraidamente os papéis, trazidos pelo ordenança ao fim do dia. Ainda não pegara neles desde então. Tinha a noite toda para o fazer. Não conseguia dormir mais do que duas ou três horas em noites de prevenção. Sobrava-lhe tempo para pôr algum expediente em dia. Entre os papéis, encontrou uma participação. Do responsável pela messe dos sargentos. Outro com a mania de que a ordem se defendia à custa do regulamento. Uma chatice, pensou consigo mesmo. Não gostava de indisciplina, mas custava-lhe ter que castigar alguém. A maior parte daqueles rapazes iria acabar no ultramar e era olho de alvo para qualquer bala perdida. Um sacrifício à altura da sua generosidade. Chegava bem para castigo. Leu a participação atentamente. Na sala de refeições dos cabos milicianos tinha havido sarilho. Aliás, numa das salas. Na outra tudo tinha estado calmo. Pelos vistos desagradados com a alimentação servida, tinham-se recusado a comer e, para agravar as coisas, tinham, selvaticamente dizia o participante, despejado o conteúdo das travessas em cima das mesas. Esta juventude já não respeitava nada. Afinal, a filha estava no seu tempo. Não! Não podia pensar assim. Já tinha visto esta mesma juventude ser heróica. Viver em tocas feitas de bidões com a alegria de quem está num palácio. Comer esparguete com esparguete ao almoço e ao jantar, sem que se lhe ouvisse um queixume. Ainda bem. Era uma hora em que a Pátria precisava da juventude mais do que nunca. Em casa, eram rebeldes. Da porta para fora, dóceis como ovelhas. Despachou para o segundo comandante, pedindo um inquérito rápido e discreto. Não queria barulho sobre o assunto. Prejudicava a imagem do quartel e dos oficiais, acima de tudo a dele. E podia servir de exemplo, mau exemplo, para outros. O tratamento destas situações tinha que ser rápido e exemplar. Talvez dez ou vinte dias de detenção, a um ou a dois, resolvessem o caso. E atemorizaria. O acumular de penas conduzia inexoravelmente à despromoção e à mobilização imediata. Ironicamente, o Poder assumia, nestes casos, que servir a Pátria podia ser castigo. Também ninguém se importava com isso. Não fazia muita diferença fazer a guerra como soldado ou sargento. Os galões não assustavam bala de terrorista. E o conceito de Pátria, em África, era diferente. Subordinado ao instinto de conservação.

(continua)
Magalhães Pinto

SORRISO DO DIA

Não sou de partidos... Há dias meti-me com as feministas... Hoje é com os machistas...

7.9.07

FIGURA DO DIA



Rui Pereira, o Ministro das Informações mais mal informado do Mundo.

PENSAMENTO DO DIA

Por estes dias, Viana do Castelo é a cidade do mundo com mais polícias por centímetro quadrado. Mesmo assim, deu-se um espectacular assalto à mão armada nas suas barbas. Um sinal de modernidade e competitividade do País. Os criminosos fazem as coisas às claras e humilham a autoridade.

FRASE DO DIA


"Banco de Portugal Passa a ser provedor dos Clientes da Banca."

José Manuel Rocha e Lúísa Pinto - "PÚBLICO" - 7/9/2007

***

Está certo! Dada a tradição, o melhor, nestas coisas da Banca, é entregar o ouro ao bandido!

MEMÓRIA

A tanga é tanga. Seja usada na praça pública, despudoradamente, bochechas inferiores ao léu, seja subtilmente disfarçada debaixo do diáfano tule de uma saia rodada rodopiando nos salões. A única diferença está em quem apresenta a tanga. Pode ser um brutamontes, tipo Durão Barroso que, sem mais aquelas, decidiu pôr o rabo do país ao léu, sem mais delongas e sem explicações, gritando no meio da praça "o país está de tanga!". Ou pode ser a gentileza feita pessoa, tipo José Sócrates que, lentamente, vai deixando que vejamos o mesmo rabo através dos sussurros dos seus coadjutores. Os quais, docemente, vão murmurando junto dos nossos ouvidos: "é pá, não achas que o país está de tanga?". A verdade é que, de tantos murmúrios, daqui a nada eu até já estou a ver a tanga no sítio onde apenas estão umas culotes de meio metro.

Há quem se recuse a ver a tanga, sem consciência de que os tempos mudaram - e muito - ultimamente. Desde logo, os optimistas. "Se nenhum país fechou até hoje, o nosso não vai ser o primeiro!". Estes sabem que, por mais tanga que o país use, sempre haverá chicha para realizar mais um EURO/2004 ou uma Casa da Música. Curioso! Os milhões de euros gastos nos dois fenómenos parecem estar a fazer falta hoje. As duas coisas foram, essencialmente, devidas aos socialistas. Com este acréscimo notável: o obreiro do EURO/2004, sorvedoiro de carcanhóis que agora fazem uma falta dos diabos, é presentemente o portador da tanga. Bem feito! Bom. Mas vamos aos outros.

Há também quem tenha consciência da tanga. Mas que acredita que os outros ainda não se aperceberam disso. Vai daí, vão agora dar-nos explicações tanguistas. Suponho que nos vão ministrar um curso de corta e cose, que disso se fazem as tangas. O problema é que, de tanto cortar, ainda vamos ficar todos cosidos. Isto é, e com alguma sorte, vamos ficar todos licenciados em tanga, agarrados a ela para toda a eternidade. Venham as explicações. Mesmo que não compreenda, sempre poderei ficar com um certificado do curso. Com jeito, até é bem possível que seja subsidiado, com dirreito a alimentação, quilómetros e tudo.

Há os que apelam para que usemos a tanga em nome do nosso orgulho de ser português, como fez o Senhor Presidente da República. Ora aqui está o que eu chamo um bom conselho. Então não haveria de ter orgulho de pertencer a um país onde o Governo me pede mais dinheiro para comparticipar menos nos medicamentos que uso, para me reduzir a pensão, para me aumentar a idade da reforma, para ter menos polícias a assistir-me, para me dar uma justiça ao ralenti, para me fazer pagar os serviços do Estado mais caros? Impante estou. De orgulho. Podemos ser um desastre a governar, mas lá que temos imaginação, temos! Obrigado pela lembrança e pelo apelo, Senhor Presidente! De grato, estava até capaz de retribuir o conselho. O Senhor Presidente manda ver quem foi que, desde o 25 de Abril, esbanjou dinheiros públicos à tripa-forra. E depois, corre com os esbanjadores. Ficará Vossa Excelência orgulhoso e eu dobrarei o meu orgulho. Há um perigo. É o de, subitamente, ficarmos sem políticos para governar o país. Mas quem sabe se não será essa a solução?

Depois, há os distraídos, que só agora se dão conta de que o país anda de tanga. Logo à cabeça, vem o Senhor Governador do Banco de Portugal. Tinha que andar distraído. Porque, Senhor Governador, eu não acredito que, do modo como tivemos o cinto apertado, a tanga tenha passado de uns míseros 2,8% para quase 7%, apenas num ano. Para mim, Senhor Governador, os 7% aparecem agora como resultado de um jogo de escondidas que se joga há pelo menos dez anos. Jogo do qual Vossa Excelência tem sido juiz de linha. E não terá dado pela batota dos jogadores. Porque, se deu e calou, o caso seria grave para Vossa Excelência. Espero pelo relatório de Vossa Excelência - que será publicado, diz-se, daqui a dois dias - para ver se estamos realmente, como eu espero que estejamos, face a um caso de distracção apenas.

Mas o maior distraído tem que ser, não pode deixar de ser, o Senhor Primeiro-Ministro. O qual foi surpreendido pelo descarnado deixado à vista pela tanga. Distraído, mas não original. Já ouvi isto num Governo qualquer que ficou aí para trás. Parece ser fadário. Indivíduo que faça campanha pela oposição e que ganhe as eleições, acaba sempre por ser surpreendido. O que me deixa espaço para o conselho porventura mais valioso que já dei na minha vida. E que é o seguinte. Os próximos momentos eleitorais devem ser precedidos de campanhas um pouco mais longas e divididas en duas partes distintas. Na primeira, que eu chamo PERÍODO ESTAGIÁRIO, os candidatos da oposição vão estagir junto de quem estiver no Poder, para tomarem conhecimento da situação verdadeira das contas públicas. Só depois passaremos à segunda parte, a que chamo PERÍODO PROMISSÓRIO, no qual os candidatos, enriquecidos pelo conhecimento da realidade, fazem apenas as promessas que julgam poder cumprir no estado em que as contas se encontram. Com esta medida extremamente simples, evitaremos várias coisas. Desde logo que a tanga passe despercebida a quem ainda a não usa. Depois, evitaremos aos novos eleitos a suprema agonia de terem que não cumprir o que, com tanta boa vontade, queriam fazer. E. por essa via, serem colocados ao mesmo nível daqueles que, com tanto esforço, colocaram fora do Poder.

O mais dramático de tudo isto é que os anos vão passando e continuam todos a dar-nos tanga. Os políticos que estiveram, os políticos que estão e, seguramente, os políticos que hão-de vir a estar. Já pouco falta para que o buraco fique completamente destapado. Meus Caros Leitores. É minha opinião que já não usaremos outra coisa senão a tanga. A não ser que mudemos de alfaiates. Mas têm que ser todos de uma vez. Têm que chegar aí umas eleições para dizermos todos: não vamos às urnas! Arranjem outros se querem o nosso voto! Que todos estes que temos, de tão habituados à tanga, já não conseguem raciocinar em termos de fato completo. Como deve estar a rir-se Manuela Ferreira Leite! Pode acontecer que seja muito mais civilizada a tanga que anunciam agora. Mas não deixa de ser tanga.

Falando de outro modo, temos que produzir algo que seja verdadeiramente um choque. Um choque político. Grande. Poderoso. Por exemplo, uma revisão constitucional que transforme o regime em presidencialista, que autorize a regionalização, que permita o aborto, que faça as igrejas pagarem impostos, que nacionalize a banca outra vez, que situe a responsabilidade com clareza e muito perto do eleitor, de modo a podermos dar uma bofetada em quem se portar mal sem termos necessidade de a mandar pelo correio. Isto é, temos que fazer uma nova revolução. Desta vez, democrática. Porque exigida por um povo vilipendiado, em nome do qual gestores sem qualidade, técnicos sofríveis, funcionários corruptos, empresários oportunistas, trabalhadores preguiçosos, praticam os maiores desmandos. Isto é, ou o regime se transforma por dentro - o que, convenhamos, é difícil mas não impossível - ou vai chegar um dia em que será modificado à força.

Até lá, vai ser o diabo levar as pessoas a usar uma tanga cada vez mais reduzida. Por mais civilizada que ela pareça ser.

Crónica A TANGA CIVILIZADA - Magalhães Pinto - VIDA ECONÓMICA - 22/5/2005

PERGUNTAS SEM RESPOSTA




Se a Agatha Christie fosse viva, escreveria um romance sobre o caso Maddie?

OS HERÓIS E O MEDO - 19º. fascículo

(continuação)

Pousou o telefone. Tentaria um pouco mais tarde. Deixá-la conviver. Família de militar era caravana de ciganos. Sem poiso nem parança. Viandeiros em caravelas de aço defendendo, com unhas e dentes, o espólio de Quinhentos. Mas ser militar era, para os varões da família, uma longa tradição da linhagem, que se perdia nos tempos das Descobertas. Quando um dos seus antepassados fora nomeado feitor dos interesses portugueses, lá para os lados da Índia, em pagamento dos serviços prestados ao reino. Mais tarde, não já como militar mas como Ministro da Fazenda do Marquês de Pombal, outro varão ganharia o condado de Soveral.

(continua)
Magalhães Pinto

SORRISO DO DIA

Caprichos da natureza... Parece uma manifestação de feministas...

6.9.07

Luciano Pavarotti - Caruso

PERDA


A Morte levou-nos hoje um presente da Vida. Paz à sua alma, com a gratidão de quem com ele se deliciou espiritualmente tantas vezes.

FRASE DO DIA

"Há alturas em que aparentes boas notícias são um mau sinal."

Paulo Ferreira - "PÚBLICO" - 6/9/2007




***

"DIAP não viu corrupção no caso entre Somague e PSD." - Notícia de "PÚBLICO"

"Essa é uma boa notícia." - Marques Mendes

PENSAMENTO DO DIA


Até final do mês de Agosto, morreu nas estradas do país mais de meio milhar de portugueses, vítimas de acidentes de viação. Mais do que na guerra colonial em cada um dos dois anos que lá estive. Nunca mais acaba esta guerra civil!

PERGUNTAS SEM RESPOSTA






Se voar é tão seguro, porque é que chamam ao aeroporto "Terminal"?

POEMA DO MÊS



THE LAST HORIZON

The last horizon
of my way...
A new land of sweetness...
a promised caress...
an universe of happiness...
...are about to fade away...
lightless stardust,
made of despair...
shivering clouds...
rains of crystals...
Winds aware
of their shouts...
waves and seas...
storms of feelings,
crying in the dark...
wingless bees...
adjourned meetings...
frontiers that mark
the no-trespassing skies...
orphans and widows
looking for love
responding to their cries...
a thousand lost shadows
flying well above
the cosmic limits...
... come all near me...
surround me...
drown me...
erase me
from the face of earth…
take me with you
to an empty land..
..be sure...
I will understand!...

Magalhães Pinto

OS HERÓIS E O MEDO - 18º. fascículo

(continuação)

Olhou o relógio. Quase uma hora da madrugada. Chegou-se ao telefone. Ao directo, que não passava pela central. Discou o número mecanicamente. Algum tempo depois, sem resposta, pousou o auscultador. A mulher tinha ido jantar com os Pestanas. Não regressara ainda. Boa gente, os Pestanas. Embora as teorias do Fernando - o Fernando Pestana era um teórico e, como teórico que era, trabalhava no Estado Maior - não o seduzissem. O Pestana era partidário da violência na repressão da desordem. Os populares em desordem eram como as moscas numa montureira: ou se desinfectava tudo com a chegada das primeiras ou depois já não se conseguiria. Para o Fernando, a polícia era demasiado branda. Não era com canhões de água que se dispersavam ajuntamentos. Era à pancada ou mesmo, se fosse preciso, com granadas lacrimogéneas. Não. Não era assim, pensava ele. De certo modo, a populaça do continente não era muito diferente da de África. A pancada conduziria a nenhures. Pelo menos, se não fosse acompanhada duma acção psico-social bem sucedida. De certo modo, era o que Salazar estava a tentar fazer. Pancada. Psico. Psico. Pancada. Entre ele e o Fernando não era possível qualquer entendimento. Discussões sem fim quando se juntavam. Inconclusivas.

(continua)
Magalhães Pinto

SORRISO DO DIA

Os fãs do Benfica no Sete de Cavalaria...

5.9.07

PENSAMENTO DO DIA


A preços de mercado, a viagem de Luís Filipe Meneses aos Açores, em campanha eleitoral partidária, teve um custo nunca inferior a 12.000 euros. E o que surge como grande interrogação no meu espírito é saber que pode levar alguém a dispender tanto dinheiro para financiar uma campanha política. Devo ser estúpido, porque me dizem que a resposta é demasiado óbvia.

FRASE DO DIA


"Um banco assaltado cada 60 minutos (em Portugal)."

José Bento Amaro . "PÚBLICO" - 5/9/2007

***

Temos que tratar disto! Os ladrões estão a ganhar mais do que o Primeiro-Ministro! Ainda por cima, em part-time e sem serem engenehiros!...

PERGUNTAS SEM RESPOSTA




Quanto é que vai subir a taxa de desemprego este mês com as dezenas de milhar de professores que ficaram sem trabalho?

OS HERÓIS E O MEDO - 17º. fascículo

(continuação)

Raramente ficava no quartel de noite. Comandante trabalha no quartel, não vive lá. Mas naqueles tempos de boatos constantes sobre golpes de estado, as prevenções sucediam-se ao ritmo das luas. Não havia mês sem duas ou três noites daquelas. Os comunistas estavam particularmente activos desde o início da guerra, em Luanda. O quartel transformava-se em casa de reclusão. Ninguém saía. A guarnição tornava-se prisioneira de si mesma. E do emaranhado das informações conseguidas sabe-se lá como. Provavelmente pela polícia política. O mínimo a fazer era dar o exemplo do sacrifício, ficando também. A obediência cega, tão necessária lá fora, nas províncias, não se conseguia só à custa do regulamento. Para ser cega precisava do respeito como venda. Com o exemplo a servir de atilho. Fora sempre desse modo que ele conseguira conduzir os seus homens a fazer impossíveis. Como no início daquela guerra, há um par de anos. No tempo dos canhangulos e das catanas, das Mäuser e das baionetas. Guerra pré-histórica em tempo de mísseis atómicos. Quanto sacrifício, meu Deus! Marchas de semanas em picadas e trilhos de mato. Aldeias semi-queimadas com os cadáveres já em decomposição, esventrados, rotos, profanados. Cibes derrubados a atravancar as estradas. Arrastados para a margem por músculos afeiçoados à enxada. A curva seguinte abordada lentamente, à espera dum inimigo eternamente invisível. O súbito guincho dum símio a servir uma dose maciça de adrenalina, conduzindo o coração a acelerações impossíveis. Em cada povoação, o terror de imagens dantescas. E aqueles homens, atrás de si, confrontados com a evidência de que nem só os bois se abatem daquele modo. Em alguns, golfadas de vómito ao ritmo das pazadas piedosas no enterro das vítimas. Para logo prosseguirem, sem desfalecimento, picada fora, no silêncio pesado de quem se sente testemunha daquilo que não compreende. Mortos de sede. Mortos de cansaço. Moralmente mortos ao descobrirem a existência de um mundo assim, espécie de matadouro. Até à povoação seguinte, onde o filme seria o mesmo. Terem respondido ao terrorismo com terrorismo, ajudara. Uma cabeça amputada por cada mulher violada. Uma casa incendiada por cada mina explodida. Uma aldeia arrasada por cada morto em combate. Tinham sido tempos para esquecer. Tentava arrumar, no arquivo morto da memória, a primeira comissão de serviço, tantas tinham sido as barbaridades com as quais houvera de pactuar e às quais fechara os olhos. Felizmente, as coisas estavam a mudar. A preocupação maior era já a acção psico-social, numa tentativa de recuperação das populações, assustadas pela tempestade subitamente desabada sobre as suas cabeças. Não obstante uma ou outra acção de combate mais perigosa, a guerra tornara-se agora rotineira. Saídas às cinco da manhã. Recepção dos morteiros inimigos à uma da noite.

(continua)
Magalhães Pinto

SORRISO DO DIA

Alguns desportos são muito perigosos... O kung-fu é um deles....

4.9.07

FRASE DO DIA

"É como ter um Ferrari (a Universidade do Minho) e não ter dinheiro para a gasolina."

Guimarães Rodrigues - Reitor da Universidade do Minho - "PÚBLICO" - 4/9/2007

***

Dê-se por feliz, meu Caro! Até os que têm Smarties se queixam disso!

PENSAMENTO DO DIA



Fernando Santo, bastonário da Ordem dos Engenheiros, explicou que a má qualidade da maior parte dos cursos de Engenharia é que leva a Ordem a reconhecer apenas cerca de um terço dos cursos existentes. Está explicado o caso "Sócrates". Afinal, ele é só um mau engenheiro.

PERGUNTAS SEM RESPOSTA




Como é que os nossos alunos hão-de aprender Francês se eles nem Português aprendem?

CRÓNICA DA SEMANA (II)


Hoje trago-lhe uma epopeia, meu Caro Leitor. Que seria digna de um filme para rir se não fosse dramático e não causasse prejuízos assinaláveis a quem se viu envolvido na tragicomédia. Uma história a que nenhum “simplex” resiste. Um indicador de como as intenções mais generosas para o nosso país naufragam no mar da burocracia estúpida. Uma nódoa indelével no esforço de modernização do país. Um relógio que transforma a “empresa na hora” numa infindável via sacra de um calvário inultrapassável. Eu conto.
RNPC é a sigla do Registo Nacional das Pessoas Colectivas. Um, entre tantos, departamento do Estado cuja função é a de que não exista qualquer possibilidade de confusão entre instituições. Nome de ente colectivo é único. Entre os indivíduos, pode haver milhares de Antónios Pinto, dezenas de milhar de Josés Silva. Nas instituições, não. Lá está o RNPC a velar por isso. E não há fuga. Quem quer que seja que decida criar um ente colectivo e baptizá-lo como convém tem que passar pelo RNPC. O qual, segundo critérios que vamos já apreciar em pormenor, tem o dom de acelerar ou retardar o nascimento. Admito mesmo que, com experiências como a que aqui vou contar, o RNPC possa ser um poderoso abortivo do são nascimento de um qualquer ente colectivo. Como todos os mortais com idênticas intenções, aí se dirigiu o candidato a criador. O objectivo era singelo. Criar uma associação que desse cobertura ao surgimento daquilo que se chama uma universidade para a terceira idade. Num tempo de facilidades cibernéticas, recorreu à Internet para solicitar a correspondente autorização ao RNPC. Ficou impressionado. Estava tudo muito organizadinho. Passo a passo, foi guiado na elaboração do correspondente pedido de admissibilidade para o nome da brevemente recém-nascida instituição. SABER – Universidade Senior Lions de Matosinhos. No objecto, escarrapachadinha, a indicação do género de associação de que se tratava. Era o dia 16 de Junho de 2007. Cinco da tarde. Na página do RNPC notícias animadoras de qualquer inimigo da burocracia: cinco dias depois de pago o requerimento era o prazo normal de deferimento ou indeferimento. Foi logo pago. Ia ser canja. Podia lá ser haver alguma outra instituição com aquele nome? A espera ia ser breve. Mesmo a jeito para quem pretendia colocar a instituição a funcionar em Outubro próximo.
Os dias foram escorrendo. A decisão surgiria, em primeira mão, na própria Internet. Depois lá viria a carta formal para casa, com selo já pago pelo requerente. A 21 de Junho, a desilusão chegou, via internet também que o RNPC é todo “simplex” nos aspectos formais. No resto é que é “complex”. Indeferido. Sem mais nenhuma explicação. Havia que esperar que chegasse a carta formal. E a explicação lá vinha. Datada de 33 de Junho. Tinham passado só dez dias com o prazo dos correios incluído. Duas razões para o indeferimento. Por um lado não era especificada, na designação social, a natureza associativa da entidade. Razoável. Segunda razão, a designação confundia-se com LOJA DO SABER – ASSOCIAÇÃO PARA A PROMOÇÃO DOS SABERES CIÊNCIA E TECNOLOGIAS PARA O DEWENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL. De abrir a boca como não nos tínhamos apercebido da confusão possível. Compare o Leitor com o nome. Deixa lá o requerimento morrer pendente e vamos a outro. E pediu, em novo requerimento, autorização para o nome ASSOCIAÇÃO CULTURAL “FLORBELA ESPANCA” e mais duas alternativas. As aspas queriam significar que Florbela Espanca estava ali como podia estar José Silva. E lá foi. Surpresa! Foram rápidos. E, no dia 16 de Agosto, a almejada notícia sobre o novo requerimento surgia espampanante na Internet. TINHA SIDO DEFERIDA A DESIGNAÇÃO! Alvíssaras! Alegria! O Rubicão tinha sido ultrapassado! A notícia foi anunciada. Os artistas começaram a trabalhar o material de promoção da nova instituição. Criar logótipo e todos os artigos que iam servir à publicidade. Os futuros sócios foram alertados para a aprovação, Começaram-se as diligências para a constituição da entidade desejada. Restaria agora aguardar a desejada carta formal a confirmar o que havia sido dito na Internet para avançar.
Um absurdo do tamanho do Mundo chegaria uns três dias depois. Relativo, note bem Caro Leitor, ao primeiro dos requerimentos. O RNPC dizia, em carta, que não dispensava a prova de legitimidade para o uso do nome de Florbela Espanca. E que essa prova era constituída por “autorização dos herdeiros de Florbela, CASO ESTES EXISTAM, e prova da legitimidade dos herdeiros através de habilitação de herdeiros” (sic). Repare-se que, nos precisos termos em que estão redigidas estas condições, as mesmas significam uma impossibilidade absoluta de satisfazer o exigido. Não se pode provar a existência ou não existência do que se não sabe se existe. O requerente ainda estve tentado em fazer uma afirmação arriscada. FLORBELA ESPANCA NÃO TEM HERDEIROS! Mas admitiu que isso ia colocar o senhor feudal que mora no RNPC em dificuldades e aumentar a inutilidade de certos custos para o erário público, com o dito senhor a procurar o que não sabia se existia. Como a exigência dizia respeito a um pedido que já tinha abandonado e como já tinha o “FLORBELA ESPANCA”, com aspas, deferido, preferiu não dizer nada, a bem da nação. E continuou à espera da amada carta que confirmaria o deferimento anunciado na Internet pelo RNPC.
Esperou, esperou, esperou. E como a desejada carta não chegava, no dia 29 de Agosto voltou á Internet, para ver se não tinha sonhado. E não é que tinha sonhado mesmo?! Aquilo que estava deferido em 16 de Agosto tinha passado a pendente. Já era amor aos pendentes por alguém do RNPC. Era ilegitimidade. Era um disparate. Era um desprezo absoluto perlo tempo, pelo interesse social, pela boa-fé, pela dedicação de uns carolas – LIONS CLUBE DE MATOSINHOS, CÂMARA MUNICIPAL DE MATOSINHOS E ASSOCIAÇÃO EMPRESARIAL DO CONCELHO DE MATOSINHOS, que esses eram os promotores da instituição a criar – que apenas queriam ser úteis à sua comunidade.
Uns dias depois disto, com data de 23 de Agosto mas muito mais tarde, lá surgiu uma nova carta do RNPC a pedir, agora para o segundo requerimento, “prova da legitimidade do uso do nome Florbela Espanca”. O requerimento lá continua. À espera que não sei quem acorde bem disposto e disponível para ajudar a funcionar o país. Entretanto, há incredulidade. Há impotência perante os desmandos. Há custos inúteis. Há tempo perdido. Há paciência esboroada. Há país atrasado. Há (muita) indignação. Já lá vão quase três meses desde que começou a odisseia. Uma odisseia que tem pelo meio um requerimento aprovado primeiro e desaprovado depois. Uma odisseia que pede uma autorização de quem não se sabe se existe e de quem se pede ainda uma prova de legitimidade baseada numa escritura de habilitação de herdeiros. Uma odisseia que deixa no espírito uma pergunta insidiosa: não há por aí um governante que meta na ordem a feira de disparates em que o RNPC está transformado e faça dele um organismo sério? E, se não houver tal governante, não há por aí pelo menos um polícia que meta os responsáveis por este absurdo burocrático na cadeia?

Crónica RNPC OU A FEIRA DOS DISPARATES - Magalhães Pinto - "VIDA ECONÓMICA" - 6/9/2007

OS HERÓIS E O MEDO - 16º. fascículo

(continuação)

O chão da parada reluzia como se todo o regimento tivesse estado a encerá-lo. Um vulto fantasmagórico, lá ao fundo, atravessava-a em passo ligeiro. O sargento de dia na ronda da noite. Capa amarelada, impermeável, montada num par de botas andantes, que mais dele se não descortinava. Viu-o desaparecer na guarita da porta de armas. Adivinhou o gesto. Pegar na chave pendurada na parede. Enfiar a chave no buraco do relógio de ronda. Dar um quarto de volta no sentido dos ponteiros. Tirar a chave. Pronto. No disco de cartolina, reprodução do mostrador, um furo minúsculo atestaria o dever cumprido. Um dever sempre exigido, mas com mais rigor nas ocasiões, como aquela, em que estavam de prevenção. Na manhã seguinte, o oficial de dia, antes de sair de serviço, passaria distraidamente os olhos sobre o disco, a ver se estavam lá todos os furos da ordem. Como se fosse o corpo de um soldado toda a noite na mira duma pistola metralhadora inimiga.

(continua)
Magalhães Pinto

SORRISO DO DIA

Os "designers" estão cada vez mais atentos às questões ergonómicas. Eis uma cadeira para homem...

3.9.07

FRASE DO DIA

"Porque é que os portugueses resistem ao preservativo?"

Alexandra Campos e Andrea Cunha Freitas - "PÚBLICO" - 3/9/2007

***

Ó senhoras! Não há preservativo, por mais forte que seja, que consiga dobrar um português!

PENSAMENTO DO DIA


Sinais dos tempos. Os seguranças das discotecas estão a precisar de contratar serviços de segurança pessoal.

(Imagem de conexaoparis.files.wordpress.com)

A GLOBALIZAÇÃO E O PAPEL DOS PALOP

(continuação)

Isso deveria chegar para darmos tanta atenção aos bens materiais como aos bens do espírito. Mas a nossa experiência conta que não é assim. Ao desenvolvimento das condições materiais da vida do Homem opõe-se a sua desumanização, a sua aculturação. As nossas diferenças, que fazem muito da nossa riqueza, esbatem-se.

Se eu tenho razão, então muita força havemos de fazer para preservar a nossa cultura. Uma cultura assente na Língua Portuguesa. E não se me chame chauvinista. Tenho plena consciência de que a cultura assente na Língua Portuguesa extravasa, em muito, a elaborada por este pequeno povo acantonado na extremidade ocidental da Europa. Por força de um destino comum, essa pequena cultura inicial colheu matizes de tantas outras civilizações que a engrandeceram, que a coloriram, que lhe deram relevo. Por força de uma saga da qual todos os que falam Português seguramente se orgulham, essa cultura deixou de ser europeia, para ser universal. Não tenho qualquer pejo em afirmar que sinto na alma as raízes africanas da minha cultura. Como sinto as raízes americanas. Como sinto as oceânicas. Não consigo ver num africano, num brasileiro, num timorense, outra coisa que não seja um irmão. Apesar de chamar aos vizinhos espanhóis "nuestros hermanos", não os sinto sequer tão próximos como o Mamadú que conheci na Guiné. Nenhum apelo da Europa consegue apagar esse meu sentimento. E, por senti-lo, sei ter uma força que vai além de ser português, de ser europeu. Seria trágico para mim se assim não sentisse. Estaria a renegar-me a mim próprio. Estaria a diminuir a cultura de que sou um átomo. Seria apenas um mais perdido na amálgama indiferenciada e aculturada.

De igual modo, e na minha opinião, seria trágico - porque perdida seria a oportunidade suprema de afirmar uma cultura vigorosa con tonalidades universais - seria trágico para os novos países de expressão oficial portuguesa, renegarem os quinhentos anos de vida em comum que construimos. Como teria sido para os brasileiros, se o tivessem feito. Que se me perdoe a pequenina vaidade de algo de que até nem terei sido - não teremos sido nós, os Portugueses - os principais obreiros. Mas acho que essa imensa pátria que é o Brasil, unida, pacífica, enorme, continental, cadinho de fusão de tantas outras culturas que nele se dissolveram, só é assim porque quis o destino e a vontade dos homens que ali ficasse impregnada a maneira de ser de um povo pequeno na dimensão, mas enorme na alma, vindo lá da Europa quando a Europa o não queria. Penso sinceramente que as heranças não se recusam. Sob pena de se ficar condenado a uma imensa e eterna pobreza.

E, agora sim, vejo com clareza a alternativa que temos diante de nós. Ou recusamos a nossa herança comum - pluricultural e pluriterritorial - e perder-nos-emos na amálgama do futuro. Ou aceitamo-la, promovêmo-la, excitámo-la, desenvolvêmo-la, e conquistaremos um papel importante no seio da comunidade global do futuro, já em gestação. Nobre papel esse, no seio da globalização desumanizante, o de preservar uma cultura que, quer o Mundo queira quer não, construiu muito do seu futuro. Uma cultura pacífica, laboriosa, amante do seu semelhante, sem laivos de racismo, encontrando na diferença o cimento para construir comunidades solidárias.

Falta saber se os homens terão a grandeza de alma suficiente para reconhecer que assim é. Ou se se esvairão na procura do que os desune e os afunda numa globalização que, trazendo alguns benefícios, está a destruir o que de melhor trazíamos do passado. Falta saber se havemos de ter tempo para ver o caminho.

FIM

Extracto de uma conferência com o mesmo título - Magalhães Pinto

PERGUNTAS SEM RESPOSTA




Quem vai a eleições primeiro, José Sócrates ou Durão Barroso?

CRÓNICA DA SEMANA (I)

O turismo é um negócio de confiança. O cliente final compra o que pretende a uma agência de viagens. Na maior parte dos casos, está a comprar algo que não conhece, que não vê, que não apalpa, que não prova. Paga adiantado. Fá-lo porque confia na honestidade do seu agente. Umas vezes, conhece-o; outras vezes nem isso. Mas confia. Por sua vez, o agente de viagens ou compra o que vendeu directamente ao fornecedor do produto final ou vai comprar esse produto a um intermediário. Muitas vezes, o agente de viagens está na situação do seu cliente. Não conhece o produto, não o vê, não o sente nem o prova. Mas acredita na honestidade de quem lhe está a vender o objecto desta transacção longa. Voltamos a estar perante um negócio de confiança. Muitas vezes cega. No extremo do processo, o cliente final consome o que pediu. Pode – e a maior parte das vezes é – ser bem servido. Ele pensa que foi pelo seu agente de viagens. Mas a verdade é que foi bem servido por uma longa cadeia. E basta a falha de alguém nessa cadeia de confiança para que ele fique insatisfeito. Nessa altura, dirá que o seu agente de viagens o serviu mal. Injusto mas compreensível.
Vem isto a propósito de alguns episódios por mim vividos. Uns objectivamente mais importantes do que outros. Mas a verdade é que a objectividade não conta muito neste caso. Para cada pessoa, o seu caso é o mais importante do mundo. Como aconteceu com aqueles avós que encomendaram e pagaram a viagem da neta, desde casa dos pais, em Londres, para o Porto. Porque a neta era ainda uma criança, encomendaram e pagaram também um serviço disponível nas companhias aéreas – e por isso, também na TAP, a empresa envolvida - O de acompanhamento de crianças. A agência de viagens que prestou o serviço – sem rebuço, a minha – encomendou à TAP o serviço e pagou-o. Na viagem de vinda da criança, tudo funcionou bem. Na viagem de ida os avós dirigiram-se ao aeroporto para devolver a criança à origem e pediram, naturalmente, o serviço de acompanhamento de crianças que haviam pedido e pago. Os serviços de balcão da TAP foram peremptórios: se queriam o tal serviço, tinham que o pagar, porque não estava encomendado. Um erro. Monumental para algo tão pequeno. A TAP já tinha cobrado esse serviço. Estava a cobrá-lo pela segunda vez. As pessoas ficaram indignadas. A agência também. A TAP vai devolver o que pagou a mais. Mas isso não evitou que fosse quebrada a confiança que, tal como noutros, tinha envolvido todo este negócio.
A indemnização a pagar pela TAP, num caso destes, devia ser pesadíssima, Embora o preço do serviço não fornecido e cobrado em dobrado fosse de apenas 40 euros. É que a quebra de confiança no negócio do turismo tem custos muito pesados para toda a gente envolvida. E devia chamar-se “abuso de confiança”. Um crime, portanto.

Crónica NEGÓCIO DE CONFIANÇA - Magalhães Pinto - "MATOSINHOS HOJE" - 3/9/2007

OS HERÓIS E O MEDO - 15º. fascículo

(continuação)

II

Chuva miudinha, quase nevoeiro mais espesso, chuva de nem pão nem queijo, de molha-tolos. Reminiscência do cacimbo dos Dembos, prenunciador de queimadas, importado como se fosse algodão ou paludismo. Irritava-o aquela chuva. Irritava-o sempre fosse o que fosse a não assumir-se com clareza. Para ele, chuva tinha que ser jorrada, enxurrada, bagos do tamanho das uvas lá da quinta a esborracharem-se no chão, com estrépito. Senão não era chuva.

Da janela do quarto dominava a parada por inteiro. As minúsculas gotas da chuva esvoaçavam em redor das lâmpadas, como se fossem mosquitos. Sentiu o absurdo. Cacimbo e mosquitos são inimigos. Quando um dissolve os ossos, os outros não chupam o sangue. Ali, agora, as regras pareciam inverter-se todas. A lógica perdia-se no labirinto duma experiência pluriespacial. Impossível pensar à africana na Europa. Se isto acontecia com ele, branco, evoluído, culto, civilizado, como podiam levar africanos a pensar à europeia? Passou a mão pela testa. Afagou os cabelos, completamente brancos. Pareciam fios de seda. Não que os seus cinquenta e sete anos justificassem já tanta brancura. Nem os tormentos da tragédia familiar, quase conduzida à miséria pelos hábitos de jogo do pai. Era de família. Uma tradição natural tão arreigada como a disciplina educativa. O gesto foi longo, lento, como se tentasse arrastar, colados aos dedos, pensamentos heréticos. Não cumpria a um militar pensar, ter dúvidas. A Pátria estava ameaçada e aos militares competia defendê-la. A Pátria não se discute, ouvira ele vezes sem conta nos Pupilos, na Academia. Ideia inculcada, martelada, incrustada, até ficar, indelével, como marca de qualidade na alma de cada candidato a oficial superior. A Pátria não se discute. Como vezes sem conta ele transmitira aos seus alunos na Escola do Exército. Cadeia sem fim de certezas quase divinas. Rolha enfiada na garganta da consciência, selada com a nobreza da função. A Pátria não se discute. Se necessário for, morre por ela. Mas não a discutas. A Pátria não se discute. Um axioma que nunca discutira. A não ser quando... Más recordações. Ele não dera parte de fraco. Mas a Amélia sofrera tanto!... E, pior, o problema estava ainda por resolver.

(continua)
Magalhães Pinto

SORRISO DO DIA

Deve ser uma companhia de voos "low cost"...

1.9.07

PENSAMENTO DO DIA


Segundo o lado Teixeira Pinto, a demissão deste foi acordada mas nunca foi negociada. Segundo o lado de Jardim Gonçalves, a demissão foi negociada mas nunca foi acordada. E vá a gente fiar-se nos banqueiros como antigamente!...

FRASE DO DIA



"Não cumprimento Cavaco."

José Saramago - "EXPRESSO" - 1/9/2007

***

É sempre assim! Os novo-ricos, mal se apanham com uns euritos no bolso, deixam logo de cumprimentar os forretas! E só ligam a reis, nunca a Presidentes da República!

PERGUNTAS SEM RESPOSTA



Haverá coincidências maiores como as verificadas no caso SOMAGUE/PSD?

PERGUNTAS DO DIA

OS HERÓIS E O MEDO - 14º. fascículo

(continuação)

Pobre Mário! Em Portugal, em meados dos anos sessenta, não há quereres. Cada um faz o que lhe mandam. Numa sociedade dividida, as divisões gozam da propriedade distributiva, afectam todas as parcelas. Assim, há sempre duas classes, a dos que querem e a dos que fazem. Com a particularidade de querer ser poder.

Nessa noite, em casa de Mário, as luzes apagam-se mais tarde. Curiosamente, nenhum barulho lá de dentro transpira cá para fora. Pelos cantos há quem chore baixinho. A tia. O irmão. A mãe de Mário está ainda sentada à mesa, ensimesmada, lágrimas a correrem-lhe cara abaixo, silenciosamente, sem soluços. A notícia sobrepõe-se a toda a realidade. É como se o tempo tivesse parado. O pai fuma um cigarro nervosamente, sentado na cadeira de braços, junto à janela. Não quer confessar, mas a sua crença no Estado Novo, de que sempre fizera gala, e a sua condição de fiel legionário, com emblema na lapela e tudo, encontram-se profundamente abaladas. Salazar deve ter acabado de perder um apoiante. Se isto assim continua, ainda os perde a todos. Falta ainda a noiva. Mário não quer dar-lhe a notícia pelo telefone. Pode bem esperar para amanhã. Sempre será menos um dia de sofrimento. Sempre será de menos uma noite mal dormida das noites que aí vêm.

(continua)
Magalhães Pinto

SORRISO DO DIA

Frankenstein como capricho da natureza...

PERGUNTAS SEM RESPOSTA



Ao sair do BCP, Teixeira Pinto também saiu da OPUS DEI? E se saiu, terá lugar de assessor na esfera do seu amigo Cavaco Silva?

FRASE DO DIA

"Sócrates enganou chefias militares."

Título de "SOL" - 1/9/2007

***

As chefias militares não são nenhuns lordes! São iguais a todos nós!...

PENSAMENTO DO DIA

Os terrenos aonde deveria surgir o Novo Aeroporto de Lisboa (OTA) estão nas mãos das construtoras, adquiridos desde 1997. Se o aeroporto muda para Alcochete, ficamos com uma de duas: ou mudamos a cidade de Lisboa para a OTA ou vão falir algumas empresas.

Amores Estudante

OS HERÓIS E O MEDO - 13º. fascículo

(continuação)

Sou muito burro! Até hoje, inchava de orgulho ao relembrar as façanhas dos meus antepassados. Os Gamas e os Dias... os Velhos e os Cabrais... Para quê?... Para quê?... Para quê uma saga do tamanho do mundo se, agora, passados quinhentos anos, querem mandar-nos embora? Ai Velho do Restelo, que acabas por ter razão quinhentos anos depois! E se querem mandar-nos embora, porque queremos nós ficar? Acho que não vou perdoar a ninguém. Nem aos que foram nem aos que não querem vir. Não se pode ficar na casa de ninguém contra a sua vontade. Nem mesmo para honrar a memória de outros idos. Se me perguntassem, eu diria não querer ficar onde me não querem. Mas ninguém me pergunta. Pegam em mim e enfiam-me num barco. Vais para ficar, dizem. E se fico lá para sempre? Não quero! Ouviram?... Não quero! Ninguém me ouve. Apenas este ruído do marulhar das ondas na praia, que já só ouço como se fosse o ronronar duma auto-metralhadora. Não quero, ouviram?... Não quero!...

(continua)

Magalhães Pinto

SORRISO DO DIA

Se a Comunidade toma conhecimento da existência "disto", torna logo o seu uso obrigatório...