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7.4.11

OS PORTUGUESES - LXI


"O historiador ocupa o centro da personalidade de Herculano. Quer dizer: não foram só as circunstâncias da época e do País que o fizeram historiógrafo, mas, acima de tudo, uma vocação íntima. O próprio poeta que ele foi, certamente o maior da primeira geração romântica sob o ponto de vista da sinceridade e da veemência, fala-nos com uma voz 'histórica' - timbre solene, temas intemporais e cíclicos, como os da Arrábida e da Semana Santa, um estilo judicatório e sentencioso, tão distante da queixa elegante de Garrett ou da pesada ourivesaria de Castilho.

O romancista de O Bobo e do Monge de Cister, e mesmo de Eurico, esse não passou, por assim dizer, de um travesti livre do historiador - um historiador sem a toga da 'magistratura moral, a quem era permitido romantizar os sentimentos dos heróis, carregar nas tintas do quadro, arranjar pateticamente as reacções humanas. Finalmente, o homem civil, O Herculano espectador e actor da vida portuguesa (e quanto mais protestava ser o puro espectador, mais actor era), agiu com estilo histórico, determinando a sua conduta em consideração dos actos de ontem e para glória dos de amanhã, apelando sempre para a exemplaridade do passado, para o juízo do futuro."

(Fonte: Vitorino Nemésio, in História de Portugal, dirigida por João Medina)

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