OS SUBMARINOSAcabou. Se houvesse algumas dúvidas de que Portugal já está debaixo de água, o facto de a actualidade informativa ser quase totalmente dominada por um caso de submarinos acabaria com elas. Recorde-se que, neste caso, cujos factos contestados ocorreram ao tempo de um governo do PSD/CDS e que têm a ver com eventual corrupção, esta ainda não está provada. Mas esse é apenas um problema mais. Em Portugal, os casos de corrupção – ou de ausência dela – não são para provar. São para distrair. São para destruir. Podiam servir para que, pelo castigo adequado de quem levanta um falso testemunho ou de quem efectivamente corrompe ou se deixa corromper, se fosse progressivamente matando os dois fenómenos, o da suspeita sem culpa e o da culpa suspeitada. Mas não servem. E já nem vale a pena lamentar que a Justiça seja tão lenta nos seus procedimentos. Esse é outro facto para ficar.
Portugal é um caso sem solução. Mais do que ser apanágio deste ou daquele Partido (que é), desta ou daquela pessoa (que é), a ideia de corrupção é algo tão radicalmente instalado no país, que não podemos passar uma semana sem que às suspeitas da sua existência suceda o mesmo que acontece com os submarinos: com bastante frequência, têm que vir à superfície, para carregar baterias. A corrupção deixa de ser, assim, um problema social e passa a ser uma necessidade tecnológica. Admito, assim, que o nosso Primeiro-Ministro, que tanta coisa tem inventado, ainda acabe por conceber uma ideia que permita a aplicação de energias alternativas aos submarinos comprados, eliminando a necessidade de vinda à superfície. Das duas coisas. Dos submarinos e da corrupção.
A imagem do país, já tão degradada no exterior devido ao modo perdulário como, do ponto de vista económico e financeiro, o conduzimos, ainda fica mais negra com os frequentes casos de corrupção possível, provável ou simplesmente anunciada com provas circunstanciais. Ainda há poucos dias, o insuspeito jornal francês Le Monde, de esquerda, afirmava coisas como estas, a nosso respeito:
- “Um país com uma crise que conduz ao bloqueio institucional, uma situação social explosiva, um fiasco económico que obrigará a medidas drásticas no curto prazo…”
- “Segundo os economistas, de todos os países europeus em vias de descarrilarem, Portugal é seguramente o elo mais fraco. Mais do que a Grécia, o pequeno país ibérico sofre de males estruturais, de exportações em queda, duma dívida externa recorde e de um défice público de 9,3%.”
- “Em Junho de 2009, Dante do Parlamento, Sócrates assegurou solenemente não saber nada das negociações sobre essas negociações (TVI). Se a Comissão de Inquérito, que vai ouvir dezenas de testemunhas, consegue provar que o Primeiro-Ministro mentiu, os dias daquele que prometeu “transformar profundamente o país” estarão contados.”
- “Desde os seus primeiros passos municipais na região da Beira Baixa, no leste do país, ele (Sócrates) esteve associado a uma dezena de escândalos.”
Esta é a imagem do nosso país que circula lá fora. Diga o Primeiro-Ministro o que disser, mostre ele os sorrisos que mostrar nas suas reuniões com os dirigentes internacionais, afirme ele a nossa liderança mundial seja no que for, ganhe a sua arrogância o excesso que ganhar (como ainda agora se viu no caso dos projectos da Guarda e da sua resposta ao PÚBLICO), é assim que actualmente nos vêm por esse mundo adiante. E um facto iniludível é que ele, mais os comparsas que estrategicamente espalhou, ao longo dos últimos cinco anos, por tudo quanto é tacho e centro de decisão, são os responsáveis por este estado negróide a que a nossa Pátria chegou.
Há, seguramente, muitas razões para termos chegado ao estado em que estamos. Mas creio que uma das mais importantes foi ter-se perdido o conceito de idoneidade. Hoje não é necessário ser-se idóneo para nada. Se quiséssemos um exemplo simples de como assim é, bastaria atentar no anúncio bancário que diz “concedemos crédito pelo telefone”. Longe vão os tempos em que conseguir um empréstimo dependia do cuidadoso escrutínio das qualidades morais e patrimoniais do candidato. Hoje, qualquer candidato seja ao que for apenas tem que ser bem-falante, ter boa presença de espírito e dispor de uma capacidade para contar uma mentira como se fosse qualquer indesmentível axioma. Um exemplo? Outra vez o Primeiro-Ministro. Diz-nos, com a maior desfaçatez que passou os seus anos mais verdes a trabalhar de borla para amigos. Algo que “cola” na sua desmedida ambição como cuspo. Será que ele pensa que nós todos somos mesmo estúpidos ou tão só acredita que aquilo que não se pode desmentir é verdade? Será que ele não vê que insulta desmedidamente a inteligência mais mediana que por aí ande? E, de outro ponto de vista, será que ele simplesmente riscou do seu dicionário pessoal o conceito de idoneidade? José Sócrates Pinto de Sousa é um cidadão sem idoneidade. Como disse José Manuel Fernandes, em alho que publicou:
- “Um dos grandes problemas de Sócrates é que perdeu a confiança das elites. Ninguém já confia nele, toda a gente tem medo de ser enganado por este personagem preocupante e ambíguo.”.
O lógico pensamento que ocorre é o de que Portugal está a bater no fundo. Mas isso é ter em muito má opinião todos os submarinos que por aí andam. Com falta de idoneidade e rodeados de corrupção. Se nos não livrarmos deles urgentemente, é sempre possível atingir fossas abissais. Das quais, obviamente, não se regressa. Fica uma esperança. A de que tal não possa durar muito mais. O Poder que conduziu Portugal a esta misérrima situação assentou praça na pirâmide dos menos afortunados por sorte ou preguiça. Inundando-lhes os bolsos de benefícios em tantos casos injustificados. Uma pirâmide que não chega para atribuir, por si só, o Poder a quem quer que seja. Mas que chega para fazer alguma diferença quando os votos são pesados. Mas essa época, a dos benefícios populistas distribuídos com mãos largas, também essa acabou. E como ela, também se irá por água abaixo, como se de um submarino roto se tratasse, o Poder que instalou à superfície.
Magalhães Pinto, em VIDA ECONÓMICA, em 8/4/2010
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