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5.1.09

POEMA DO MÊS



DESENCONTRO

é a distância que existe
entre o amado e o amante...
é algo triste
que nos mata, a cada instante...
é um leito ainda quente,
vazio... já esquecido...
onde se encontram, serenas,
no lugar estremecido,
as sombras das nossas penas...
Mas é nesse desencontro,
feito de tanto desgosto,
que vegeta o meu encontro
com aquilo de que gosto!...

Magalhães Pinto

PERSPECTIVA - VI



(Vidé I)

CARNAVAL DO RIO - VII


´
(Vidé I)

ESCRITO NA PEDRA



É mais fácil ser amante do que ser marido, pela simples razão de que é mais difícil ter espírito diariamente do que dizer coisas bonitas de vez em quando.

Honoré de Balzac

PÁGINA DE ARTE



ELMER BISHOFF (americano)

RELÍQUIAS



ISOTTA FRACHINI (1928)

EFEMÉRIDE DO DIA

Neste dia, em 1896, foi tornada pública a descoberta, pelo alemão Wilhelm Roentgen, dos raios X.

FOTO DO DIA

SORRISO DO DIA

Novo método policial de bloqueio por mau estacionamento...

4.1.09

MOMENTO DE BELEZA

A DANÇA DO PAVÃO, por uma bailarina chinesa.

PENSAMENTO DO DIA



O mercado das antiguidades vai de vento em popa. Já só temos dinheiro para comprar coisas velhas.

FRASE DO DIA

"Foi um erro de há 20 anos não se ter apostado no ensino profissional, que continua a ser visto como um ensino de segunda."

António Barreto, sociólogo - PÚBLICO - 4/12/2008

***

Não, meu Caro Professor. Foi um erro ter terminado o ensino profissional há 33 anos, quando o senhor e outros mandavam no país. Esse esforço para colocar a responsabilidade nos governos de Cavaco Silva é próprio de si - que um dia disse que Cavaco lhe fazia lembrar um chaparro, porque secava tudo em seu redor - mas é uma completa... inverdade, para ser delicado.

FIGURA DO DIA

Israel. Já vai na guerra dos 60 anos. Pode muito bem ultrapassar o recorde que é de 100 anos, como sabemos.

PERGUNTAS SEM RESPOSTA


Quantos são os Portugueses esquecidos pelos poderes públicos, a que se referiu o Presidente da República no discurso de ano novo?

PÁGINA DO BRASIL

Em 2007 e 2008, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva dedicou 138 dias - quatro meses e meio - à agenda externa. Um aumento de 68% em relação aos 82 dias que passou fora do Brasil em 2003 e 2004, igual período do primeiro mandato, segundo levantamento feito pelo jornal O Estado S. Paulo. Se, em tese, refizesse todas as viagens internacionais do segundo mandato sem interrupções, uma após a outra, Lula teria se ausentado da capital federal de 1º de janeiro a 17 de maio.

A Presidência buscou novas rotas - subiu de 35 para 46 o total de países visitados no segundo mandato e de 30 para 39 o total de viagens internacionais, em comparação com 2003 e 2004. Os giros pelo Hemisfério Sul, tanto no primeiro como no segundo mandato, foram constantes. Em 2007 e 2008, foi cinco vezes à Argentina - principal destino no novo mandato -, três vezes ao Paraguai e à Venezuela. Visitou seis nações africanas.

Para os defensores da política externa, Lula vem assegurando novos mercados e ampliando as relações com outros países, uma garantia em tempos de crise. Para os críticos, porém, ele fica tempo demais fora do País. Há outros motivos que explicariam as viagens. O Brasil vem acentuando seu papel protagonista - seja porque se tornou ator internacional relevante, seja porque o G-20 solicitou mais presença ou porque, com a crise econômica e a posse de Barack Obama, nos EUA, o País é visto como capaz de ajudar a construir consensos. Quem afirma é o coordenador-geral do Grupo de Conjuntura Internacional da USP Gilberto Dupas. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

***

Está a tentar bater o recorde do português Mário Soares...

PERSPECTIVA - VI



(Vidé I)

CARNAVAL DO RIO - VI



(Vidé I)

ESCRITO NA PEDRA



O fardo do casamento é tão pesado que são precisos dois, para carregá-lo, e, por vezes, três.

Clara Luce

PÁGINA DE ARTE



JOHANNES VERMEER (holandês)

RELÍQUIAS



ISOTTA FRASCHINI TIPO 84 LEBARON BOATTAIL ROADSTER (1929)

EFEMÉRIDE DO DIA

Neste dia, em 1248, faleceu no exílio o quarto rei protuguês, D. Sancho II.

FOTO DO DIA

SORRISO DO DIA

A sabedoria dos políticos...

(Gentileza de M.H.Serrano)

3.1.09

INTERLÚDIO

Uma magnífica canção dos PET SHOP BOYS, que ficou para sempre no ouvido - GO WEST.

PENSAMENTO DO DIA


Felizmente, as máquinas da CP já não são a vapor. Senão, poderíamos dizer que não há fumo sem fogo...

FRASE DO DIA

"Cavaco tira ilusões a Sócrates."

Título de SOL - 3/1/2009

***

Pois!... E, depois, o Primeiro-Ministro vinga-se a tirar ilusões aos Portugueses!...

(imagem de inet.sitepac.pt)

FIGURA DO DIA

CP. Empresa dos Caminhos de Ferro Portugueses. Onde existe uma associação criminosa de certeza. Ou aqueles que denunciaram factos criminosos sem que eles existam. Ou quem praticou os actos criminosos que foram denunciados.

PERGUNTAS SEM RESPOSTA


Quem é que vai pagar o que Portugal deve ao estrangeiro, se nós não temos sequer para pagar as nossas dívidas pessoais?

PÁGINA DO BRASIL

O menor F., de 12 anos, foi detido hoje, na zona sul de São Paulo, pela décima vez em pouco mais de um ano. F. estava num Verona furtado poucas horas antes, acompanhado de R., de 17 anos, quando foi pego por policiais militares, após uma breve perseguição na Avenida Robert Kennedy, na região da Capela do Socorro. Durante o cerco policial R., que dirigia o carro, perdeu o controle do automóvel, que bateu contra o veículo policial. Eles foram levados ao 102º Distrito Policial (Socorro) e liberados para os responsáveis. A Polícia Civil informou que a medida foi tomada porque eles não cometeram nenhum crime grave. R. também teria uma passagem anterior pela polícia por dirigir sem habilitação.

O Verona branco onde estavam F. e o outro adolescente foi roubado na esquina das Avenidas Interlagos e Nossa Senhora do Sabará, na zona sul. A proprietária notou a falta do carro ontem e avisou a polícia. Depois de duas horas, PMs avistaram o automóvel na Robert Kennedy, onde os menores foram detidos. Da última vez em que foi levado para uma delegacia, no dia 16, F. estava num Santana furtado com outros três adolescentes, de 14, 16 e 17 anos. Os menores foram detidos no Jardim São Bernardo, na região do Grajaú, zona sul. Na ocasião, F. e o adolescente de 16 anos foram levados, algemados, à Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente (Casa). Os outros dois adolescentes, por não terem passagem pela polícia, foram liberados.

F. foi detido em 23 de outubro, com 12 anos completos, idade mínima para que um menor seja encaminhado à Fundação Casa. Na ocasião, o menor também estava com um veículo furtado no Jardim Sabará, quando policiais pediram para que ele parasse. F. não obedeceu, fugiu com o carro e bateu num poste, mas não ficou ferido. O caso foi registrado no 80º DP (Vila Joaniza), zona sul. Na sétima vez em que foi detido, em 25 de agosto, o menor dirigia um Chevette branco roubado quando foi parado por PMs na Vila Joaniza.

Na ocasião, ele ainda tinha 11 anos e estava acompanhado por outros três menores, de 14, 15 e 16 anos. Desta vez, F. foi encaminhado a um abrigo de nome não divulgado pela Justiça. O primeiro boletim de ocorrência que cita F. foi registrado em 31 de outubro de 2007, quando ele dirigia uma moto emprestada sem permissão. Os outros, todos de 2008, são por dirigir sem licença (27 de abril), furto a farmácia (28 de junho), apreensão de carro (16 de agosto), desacato (17 de agosto) e roubo de automóvel (22 de agosto).

***

Currículo impressionante, de fazer inveja a muitos adultos...

PERSPECTIVA - V



(Vidé I)

CARNAVAL DO RIO - V



(Vidé I)

ESCRITO NA PEDRA




É acreditando nas rosas que as fazemos desabrochar.

Anatole France

PÁGINA DE ARTE



TITO AGUIARI (italiano)

RELÍQUIAS



LINCOLN SPORT SEDAN (1928)

EFEMÉRIDE DO DIA

Neste dia, em 1962, o Papa João XXIII excomungou Fidel Castro da Igreja Católica.

FOTO DO DIA

SORRISO DO DIA

Retrovisor de recurso...

2.1.09

PENSAMENTO DO DIA

O discurso de Ano Novo do Presidente da República foi um chorrilho de lugares comuns, mil e uma vezes repetidos, este ano, por mãos cheias de comentadores e analistas. Ainda valia a pena, se o Primeiro-Ministro ligasse mais ao Presidente do que a nós. Mas ainda recentemente vimos que não. Parece até ligar menos.

FRASE DO DIA

"Nesta fase da vida do país, devemos evitar divisões. Vamos precisar muito uns dos outros."

Presidente da República, no discurso de Ano Novo - PÚBLICO - 2/1/2009

***

Ok, Senhor Presidente! Daqui para a frente, todo o homem português é meu irmâo! A começar pelos engenheiros!...

FIGURA DO DIA

Vaclav Klaus. Presidente da República Checa. Agora também, e por seis meses, Presidente da União Europeia. A Comunidade presidida por alguém que publicamente afirma não acreditar na União Europeia. Na política, os oabsurdos não terminam nunca.

PERGUNTAS SEM RESPOSTA

Se os deputados votarem a suspensão da avaliação dos professores que o Presidente da República promulgou ontem, será isso também por ele considerado um acto de deslealdade?

MEMÓRIA

O Senhor Presidente da República fez um inflamado discurso, incitando-nos a sermos patriotas. Não ao jeito antigo, de bandeira, hino, pátria e família, mas sim patriotas modernos. E por aqui se ficou. Modernos. Só que eu não sei o que isso é. Ou melhor, podia saber. Mas tudo quanto temos feito só nos dá motivos para não ser patriota.

Sabe Deus quanto me custa dizer isto. Amo o meu Portugal mais do que tudo. Tenho orgulho de ser Português. Mas, curiosamente, quando a mim mesmo pergunto porque razão tenho orgulho de ser Português, só me lembro da História do meu Povo. Só me lembro das tradições do meu Povo. Só me lembro da época das conquistas que fez este meu país. Só me lembro dos feitos das Descobertas. Só me lembro do génio de meia dúzia de Portugueses, com Camões à frente. Só me lembro da beleza da minha Língua, uma das mais bonitas do Mundo. Mas tudo isto apenas faz um patriota à moda antiga.

Procuro à minha volta, a ver se encontro razões para ser patriota. Moderno. E não encontro. Vejo pretensos grandes do meu país acossados pela Justiça, por serem suspeitos de um crime hediondo. Vejo alguém, em quem o Povo confiou para conduzir os seus destinos, fugir do meu País para não dar com os ossos na prisão. Vejo esse mesmo alguém, com uma desfaçatez incrível, fazer acusações de que os ladrões são outros, em quem igualmente o Povo confiou. Vejo rios de dinheiro a escoarem-se sem lhe ver os resultados a que se destinavam. Vejo os jovens do meu país perdidos na ignorância e na impreparação para serem homens grandes. Vejo ameaças de nos sacarem os recursos marinhos sem termos força para o impedir. Que razões encontro eu, nos tempos modernos, para ser patriota? Tenho uma democracia e mais nada. Mas uma democracia não faz um patriota. Quando muito, dá-lhe jeito para dizer que não encontra motivos para ser patriota. Como eu estou aqui fazendo.

...

Excerto da crónica PATRIOTISMO - Magalhães Pinto - MATOSINHOS HOJE - 14/6/2003

PÁGINA DO BRASIL

O prefeito eleito do Recife, João da Costa (PT), foi empossado hoje na Câmara de Vereadores, com um discurso inspirado num poema de Paulo Freire, escrito durante o exílio em Santiago do Chile, em 1969, chamado É sempre Recife. Por meio do poema, João da Costa declarou seu amor pela cidade, a influência em sua política socialista e o seu compromisso com os excluídos.

Após a cerimônia na Câmara, Costa seguiu para a Prefeitura, para a cerimônia de transmissão de cargo. Ele receberá o posto do ex-prefeito João Paulo (PT), que teve dois mandatos consecutivos e foi um de seus maiores cabos eleitorais na campanha eleitoral, apontado como responsável pela vitória em primeiro turno.

***

Todo o político brasileiro guarda em si uma alma de poeta...

PERSPECTIVA - IV



(Vidé I)

CARNAVAL NO RIO - IV




(Vidé I)

ESCRITO NA PEDRA



De todos os sentidos, a vista é o mais superficial, o ouvido o mais orgulhoso, o olfacto o mais voluptuoso, o gosto o mais supersticioso e inconstante, o tacto o mais profundo.

Diderot

PÁGINA DE ARTE



VITTORIO REGIANNI (italiano)

RELÍQUIAS



BENTLEY 6 litros GIL & SON CONVERTIBLE SEDAN (1927)

EFEMÉRIDE DO DIA

Neste dia, em 2002, entrou em circulação, em onze países da Europa, a moeda única, o EURO.

FOTO DO DIA

SORRISO DO DIA

A greve às horas extra colidiu com a conferência...

1.1.09

NOTÁVEL!



***

Este Blog quer começar o ano dando publicidade a um notável texto que lhe chegou às mãos. Não está assinado. Diz apenas que é uma carta de uma mãe para o Primeiro-Ministro. Mas é de uma qualidade assinalável, tanto na beleza da sua construção, como no respeito que, apesar de tudo, demonstra, como no indesmentível e belo patriotismo que denuncia, como no modo certeiro como traz à luz do dia as dúvidas de praticamente todos que se preocupam com o ensino dos nossos jovens. É extenso. Mas vale a pena ler e amplificar. Particularmente neste momento em que o Presidente da República se recusa a qualquer opinião crítica sobre os diplomas legais que lhe chegam às mãos, desde que não mexam com os poderes presidenciais.

A qualidade deste texto e o interesse da sua leitura levam-nos a não publicar mais nada hoje, retomando amanhã as nossas publicações habituais.

Os Leitores interessados em divulgar o seu conteúdo podem enviar o post a quem pretendam, clicando no pequeno sobrescrito na margem inferior do post e endereçando-o.


***

Sr. 'Engº' José Sócrates,

Antes de mais, peço desculpa por não o tratar por Excelência nem por
Primeiro-Ministro, mas, para ser franca, tenho muitas dúvidas quanto
ao facto de o senhor ser excelente e, de resto, o cargo de primeiro-ministro parece-me, neste momento, muito pouco dignificado. Também queria avisá-lo de antemão que esta carta vai ser longa, mas penso que não haverá problema para si, já que você é do tempo em que o ensino do Português exigia grandes e profundas leituras. Ainda pensei em escrever tudo por tópicos e com abreviaturas, mas julgo que lhe faz bem recordar o prazer de ler um texto bem escrito, com princípio, meio e fim, e que, quiçá, o faça reflectir (passe a falta de modéstia).

Gostaria de começar por lhe falar do 'Magalhães'. Não sobre os erros ortográficos, porque a respeito disso já o seu assessor deve ter recebido um e-mail meu. Queria falar-lhe da gratuitidade, da inconsequência, da precipitação e da leviandade com que o senhor engenheiro anunciou e pôs em prática o projecto a que chama de
e-escolinha.

O senhor fala em Plano Tecnológico e, de facto, eu tenho visto a tecnologia, mas ainda não vi plano nenhum. Senão, vejamos a cronologia dos factos associados ao projecto 'Magalhães':

. No princípio do mês de Agosto, o senhor engenheiro apareceu na televisão a anunciar o projecto e-escolinhas e a sua ferramenta: o portátil Magalhães.

. No dia 18 de Setembro (quinta-feira) ao fim do dia, o meu filho traz na mochila um papel dirigido aos encarregados de educação, com apenas quatro linhas de texto informando que o 'Magalhães' é um projecto do Governo e que, dependendo do escalão de IRS, o seu custo pode variar entre os zero e os 50 euros. Mais nada! Seguia-se um formulário com espaço para dados como nome do aluno, nome do encarregado de educação, escola, concelho, etc. e, por fim, a oportunidade de assinalar, com uma cruzinha, se pretendemos ou não adquirir o 'Magalhães'.

. No dia 22 de Setembro (segunda-feira), ao fim do dia, o meu filho traz um novo papel, desta vez uma extensa carta a anunciar a visita, no dia seguinte, do primeiro-ministro para entregar os primeiros 'Magalhães' na EB1 Padre Manuel de Castro. Novamente uma explicação respeitante aos escalões do IRS e ao custo dos portáteis.

. No dia 23 de Setembro (terça-feira), o meu filho não traz mais papéis, traz um 'Magalhães' debaixo do braço.

Ora, como é fácil de ver, tudo aconteceu num espaço de três dias úteis em que as famílias não tiveram oportunidade de obter esclarecimentos sobre a futura utilização e utilidade do 'Magalhães'. Às perguntas que colocámos à professora sobre o assunto, ela não soube responder. Reunião de esclarecimento, nunca houve nenhuma.

Portanto, explique-me, senhor engenheiro: o que é que o seu Governo pensou para o 'Magalhães'? Que planos tem para o integrar nas aulas? Como vai articular o seu uso com as matérias leccionadas? Sabe, é que 50 euros talvez seja pouco para se gastar numa ferramenta de trabalho, mas, decididamente, e na minha opinião, é demasiado para se gastar num brinquedo. Por favor, senhor engenheiro, não me obrigue a concluir que acabei de pagar por uma inutilidade, um capricho seu, uma manobra de campanha eleitoral, um espectáculo de fogo de artifício do qual só sobra fumo e o fedor intoxicante da pólvora.

Seja honesto com os portugueses e admita que não tem plano nenhum. Admita que fez tudo tão à pressa que nem teve tempo de esclarecer as escolas e os professores. E não venha agora dizer-me que cabe aos pais aproveitarem esta maravilhosa oportunidade que o Governo lhes deu e ensinarem os filhos a lidar com as novas tecnologias. O seu projecto chama-se e-escolinha, não se chama e-familiazinha! Faça-lhe jus! Ponha a sua equipa a trabalhar, mexa-se, credibilize as suas iniciativas!

Uma coisa curiosa, senhor engenheiro, é que tudo parece conspirar a seu favor nesta sua lamentável obra de empobrecimento do ensino assente em medidas gratuitas.

Há dias arrisquei-me a ver um episódio completo da série Morangos com Açúcar. Por coincidência, apanhei precisamente o primeiro episódio da nova série que significa, na ficção, o primeiro dia de aulas daquela miudagem. Ora, nesse primeiro dia de aulas, os alunos conheceram a sua professora de matemática e o seu professor de português. As imagens sucediam-se alternando a aula de apresentação de matemática por contraposição à de português. Enquanto a professora de matemática escrevia do quadro os pressupostos da sua metodologia - disciplina, rigor e trabalho - o professor de português escrevia no quadro os pressupostos da sua - emoção, entrega e trabalho. Ora, o que me faz espécie, senhor engenheiro, é que a personagem da professora de matemática é maldosa, agressiva e antiquada, enquanto que o professor de português é um tipo moderno e bué de fixe. Então, de acordo com os princípios do raciocínio lógico, se a professora de matemática é maldosa e agressiva e os seus pressupostos são disciplina e rigor, então a disciplina e o rigor são coisas negativas. Por outro lado, se o professor de português é bué de fixe, então os pressupostos da emoção e da entrega são perfeitos. E de facto era o que se via. Enquanto que na aula de matemática os alunos bufavam, entediados, na aula de português sorriam, entusiasmados.

Disciplina e rigor aparecem, assim, como conceitos inconciliáveis com emoção e entrega, e isto é a maior barbaridade que eu já vi na minha vida. Digo-o eu, senhor engenheiro, que tenho uma profissão que vive das emoções, mas onde o rigor é 'obstinado', como dizem os poetas. Eu já percebi que o ensino dos dias de hoje não sabe conciliar estes dois lados do trabalho. E, não o sabendo, optou por deixar de lado a disciplina e o rigor. Os professores são obrigados a acreditar que para se fazer um texto criativo não se pode estar preocupado com os erros ortográficos. E que para se saber fazer uma operação aritmética não se pode estar preocupado com a exactidão do seu resultado. Era o que faltava, senhor engenheiro!

Agora é o momento em que o senhor engenheiro diz de si para si: mas esta mulher é um Velho do Restelo, que não percebe que os tempos mudaram e que o ensino tem que se adaptar a essas mudanças? Percebo, senhor engenheiro. Então não percebo? Mas acontece que o que o senhor engenheiro está a fazer não é adaptar o ensino às mudanças, você está a esvaziá-lo de sentido e de propósitos. Adaptar o ensino seria afinar as metodologias por forma a torná-las mais cativantes aos olhos de uma geração inquieta e voltada para o imediato. Mas nunca diminuir, nunca desvalorizar, nunca reduzir ao básico, nunca baixar a bitola até ao nível da mediocridade.

Mas, por falar em Velho do Restelo...

... Li, há dias, numa entrevista com uma professora de Literatura Portuguesa, que o episódio do Velho do Restelo foi excluído do estudo d'Os Lusíadas. Curioso, porque este era o episódio que punha tudo em causa, que questionava, que analisava por outra perspectiva, que é algo que as crianças e adolescentes de hoje em dia estão pouco habituados a fazer. Sabem contrariar, é certo, mas não sabem questionar. São coisas bem diferentes: contrariar tem o seu quê de gratuito; questionar tem tudo de filosófico. Para contrariar, basta bater o pé. Para questionar, é preciso pensar.

Tenho pena, porque no meu tempo (que não é um tempo assim tão distante), o episódio do Velho do Restelo, juntamente com os de Inês de Castro e da Ilha dos Amores, era o que mais apaixonava e empolgava a turma. Eram três episódios marcantes, que quebravam a monotonia do discurso de engrandecimento da nação e que, por isso, tinham o mérito de conseguir que os alunos tivessem curiosidade em descodificar as suas figuras de estilo e desbravar o hermetismo da linguagem. Ainda hoje me lembro exactamente da aula em que começámos a ler o episódio de Inês de castro e lembro-me das palavras da professora Lídia, espicaçando-nos, estimulando-nos, obrigando-nos a pensar. E foi há 20 anos.

Bem sei que vivemos numa era em que a imagem se sobrepõe à palavra, mas veja só alguns versos do episódio de Inês de Castro, veja que perfeita e inequívoca imagem eles compõem:

'Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano d'alma ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito (...)'

Feche os olhos, senhor engenheiro, vá lá, feche os olhos. Não consegue ver, perfeitamente desenhado e com uma nitidez absoluta, o rosto branco e delicado de Inês de Castro, os seus longos cabelos soltos pelas costas, o corpo adolescente, as mãos investidas num qualquer bordado, o pensamento distante, vagueando em delícias proibidas no leito do príncipe? Não vê os seus olhos que de vez em quando escapam às linhas do bordado e vão demorar-se na janela, inquietos de saudade,
à espera de ver D. Pedro surgir a galope na linha do horizonte? E agora, se se concentrar bem, não vê uma nuvem negra a pairar sobre ela, não vê o prenúncio do sangue a escorrer-lhe pelos fios de cabelo? Não consegue ver tudo isto apenas nestes quatro versos?

Pois eu acho estes quatro versos belíssimos, de uma simplicidade arrebatadora, de uma clareza inesperada. É poesia, senhor engenheiro, é poesia! Da mais nobre, grandiosa e magnífica que temos na nossa História. Não ouse menosprezá-la. Não incite ninguém a desrespeitá-la.

Bem, admito que me perdi em divagações em torno da Inês de Castro. O que eu queria mesmo era tentar perceber porque carga de água o Velho do Restelo desapareceu assim. Será precisamente por estimular a diferença de opiniões, por duvidar, por condenar? Sabe, não tarda muito, o episódio da Ilha dos Amores será também excluído dos conteúdos programáticos por 'alegado teor pornográfico' e o de Inês de Castro igualmente, por 'incitamento ao adultério e ao desrespeito pela autoridade'.

Como é, senhor engenheiro? Voltamos ao tempo do 'lápix' azul?

E já agora, voltando à questão do rigor e da disciplina, da entrega e da emoção: o senhor engenheiro tem ideia de quanta entrega e de quanta emoção Luís de Camões depôs na sua obra? E, por outro lado, o senhor engenheiro duvida da disciplina e do rigor necessários à sua concretização? São centenas e centenas de páginas, em dezenas de capítulos e incontáveis estrofes com a mesma métrica, o mesmo tipo de rima, cada palavra escolhida a dedo... o que implicou tudo isto senão uma carga infinita de disciplina e rigor?

Senhor engenheiro José Sócrates: vejo que acabo de confiar o meu filho ao sistema de ensino onde o senhor montou a sua barraca de circo e não me apetece nada vê-lo transformar-se num palhaço. Bem, também não quero ser injusta consigo. A verdade é que as coisas já começaram a descarrilar há alguns anos, mas também é verdade que você está a sobrealimentar o crime, com um tirinho aqui, uma facadinha ali, uma desonestidade acolá.

Lembro-me bem da época em que fiz a minha recruta como jornalista e das muitas vezes em que fui cobrir cerimónias e eventos em que você participava. Na altura, o senhor engenheiro era Secretário de Estado do Ambiente e andava com a ministra Elisa Ferreira por esse Portugal fora, a inaugurar ETAR's e a selar aterros. Também o vi a plantar árvores, com as suas próprias mãos. E é por isso que me dói que agora, mais de dez anos depois, você esteja a dar cabo das nossas sementes e a tornar estéreis os solos que deveriam ser férteis.

Sabe, é que eu tenho grandes sonhos para o meu filho. Não, não me refiro ao sonho de que ele seja doutor ou engenheiro. Falo do sonho de que ele respeite as ciências, tenha apreço pelas artes, almeje a sabedoria e valorize o trabalho. Porque é isso que eu espero da escola. O resto é comigo.

Acho graça agora a ouvir os professores dizerem sistematicamente aos pais que a família deve dar continuidade, em casa, ao trabalho que a escola faz com as crianças. Bem, se assim fosse eu teria que ensinar o meu filho a atirar com cadeiras à cabeça dos outros e a escrever as redacções em linguagem de sms. Não. Para mim, é o contrário: a escola é que deve dar continuidade ao trabalho que eu faço com o meu filho. Acho que se anda a sobrevalorizar o papel da escola. No meu tempo, a escola tinha apenas a função de ensinar e fazia-o com competência e rigor. Mas nos dias que correm, em que os pais não têm tempo nem disposição para educar os filhos, exige-se à escola que forme o seu carácter e ocupe todo o seu tempo livre. Só que infelizmente ela tem cumprido muito mal esse papel.

A escola do meu tempo foi uma boa escola. Hoje, toda a gente sabe que a minha geração é uma geração de empreendedores, de gente criativa e com capacidade iniciativa, que arrisca, que aposta, que ambiciona. E não é disso que o país precisa? Bem sei que apanhámos os bons ventos da adesão à União Europeia e dos fundos e apoios que daí advieram, mas isso por si só não bastaria, não acha? E é de facto curioso: tirando o Marco cigano, que abandonou a escola muito cedo, e a Fatinha que andava sempre com ranhoca no nariz e tinha que tomar conta de três irmãos mais novos, todos os meus colegas da primária fizeram alguma coisa pela vida. Até a Paulinha, que era filha da empregada (no meu tempo dizia-se empregada e não auxiliar de acção educativa, mas, curiosamente, o respeito por elas era maior), apesar de se ter ficado pelo 9º ano, não descansou enquanto não abriu o seu próprio Pão Quente e a ele se dedicou com afinco e empenho. E, no entanto, levámos reguadas por não sabermos de cor as principais culturas das ex-colónias e éramos sujeitos a humilhação pública por cada erro ortográfico. Traumatizados? Huuummm... não me parece. Na verdade, senhor engenheiro, tenho um respeito e uma paixão pela escola tais que, se tivesse tempo e dinheiro, passaria o resto da minha vida a estudar.

Às vezes dá-me para imaginar as suas conversas com os seus filhos (nem sei bem se tem um ou dois filhos...) e pergunto-me se também é válido para eles o caos que o senhor engenheiro anda a instalar por aí. Parece que estou a ver o seu filho a dizer-lhe: ó pai, estou com dificuldade em resolver este sistema de três equações a três incógnitas... dás-me uma ajuda? E depois, vejo-o a si a responder com a sua voz de homilia de domingo: não faz mal, filho... sabes escrever o teu nome completo, não sabes? Então não te preocupes, é perfeitamente suficiente...

Vendo as coisas assim, não lhe parece criminoso o que você anda a fazer?

E depois, custa-me que você apareça em praça pública acompanhado da sua Ministra da Educação, que anda sempre com aquele ar de infeliz, de quem comeu e não gostou, ambos com o discurso hipócrita do mérito dos professores e do sucesso dos alunos, apoiados em estatísticas cuja real interpretação, à luz das mudanças que você operou, nos apresenta uma monstruosa obscenidade. Ofende-me, sabe? Ofende-me por me tomar por estúpida.

Aliás, a sua Ministra da Educação é uma das figuras mais desconcertantes que eu já vi na minha vida. De cada vez que ela fala, tenho a sensação que está a orar na missa de sétimo dia do sistema de ensino e que o que os seus olhos verdadeiramente dizem aos pais deste Portugal é apenas 'os meus sentidos pêsames'.

Não me pesa a consciência por estar a escrever-lhe esta carta. Sabe, é que eu não votei em si para primeiro-ministro, portanto estou à vontade. Eu votei em branco. Mas , alto lá! Antes que você peça ao seu assessor para lhe fazer um discurso sobre o afastamento dos jovens da política, lembre-se, senhor engenheiro: o voto em branco não é o voto da indiferença, é o voto da insatisfação! Mas, porque vos é conveniente, o voto em branco é contabilizado, indiscriminadamente, com o voto nulo, que é aquele em que os alienados desenham macaquinhos e escrevem obscenidades.

Você, senhor engenheiro, está a arriscar-se demasiado. Portugal está prestes a marcar-lhe uma falta a vermelho no livro de ponto. Ah... espere lá... as faltas a vermelho acabaram... agora já não há castigos...

Bem, não me vou estender mais, até porque já estou cansada de repetir 'senhor engenheiro para cá', 'senhor engenheiro para lá'. É que o meu marido também é engenheiro e tenho receio de lhe ganhar cisma.

Esta carta não chegará até si. Vou partilhá-la apenas e só com os meus E-leitores (sim, sim, eu também tenho os meus eleitores) e talvez só por causa disso eu já consiga hoje dormir melhor. Quanto a si, tenho dúvidas.

Para terminar, tenho um enorme prazer em dedicar-lhe, aqui, uma estrofe do episódio do Velho do Restelo. Para que não caia no esquecimento. Nem no seu, nem no nosso.

'A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas,
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias? '

Atenciosamente e ao abrigo do artigo nº 37 da Constituição da República Portuguesa,

Uma mãe preocupada

***

31.12.08

PENSAMENTO DO DIA




Cubanos. Conseguiram tirar, de Angola, mais e mais depressa do que o fizeram os Portugueses.