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2.1.09

MEMÓRIA

O Senhor Presidente da República fez um inflamado discurso, incitando-nos a sermos patriotas. Não ao jeito antigo, de bandeira, hino, pátria e família, mas sim patriotas modernos. E por aqui se ficou. Modernos. Só que eu não sei o que isso é. Ou melhor, podia saber. Mas tudo quanto temos feito só nos dá motivos para não ser patriota.

Sabe Deus quanto me custa dizer isto. Amo o meu Portugal mais do que tudo. Tenho orgulho de ser Português. Mas, curiosamente, quando a mim mesmo pergunto porque razão tenho orgulho de ser Português, só me lembro da História do meu Povo. Só me lembro das tradições do meu Povo. Só me lembro da época das conquistas que fez este meu país. Só me lembro dos feitos das Descobertas. Só me lembro do génio de meia dúzia de Portugueses, com Camões à frente. Só me lembro da beleza da minha Língua, uma das mais bonitas do Mundo. Mas tudo isto apenas faz um patriota à moda antiga.

Procuro à minha volta, a ver se encontro razões para ser patriota. Moderno. E não encontro. Vejo pretensos grandes do meu país acossados pela Justiça, por serem suspeitos de um crime hediondo. Vejo alguém, em quem o Povo confiou para conduzir os seus destinos, fugir do meu País para não dar com os ossos na prisão. Vejo esse mesmo alguém, com uma desfaçatez incrível, fazer acusações de que os ladrões são outros, em quem igualmente o Povo confiou. Vejo rios de dinheiro a escoarem-se sem lhe ver os resultados a que se destinavam. Vejo os jovens do meu país perdidos na ignorância e na impreparação para serem homens grandes. Vejo ameaças de nos sacarem os recursos marinhos sem termos força para o impedir. Que razões encontro eu, nos tempos modernos, para ser patriota? Tenho uma democracia e mais nada. Mas uma democracia não faz um patriota. Quando muito, dá-lhe jeito para dizer que não encontra motivos para ser patriota. Como eu estou aqui fazendo.

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Excerto da crónica PATRIOTISMO - Magalhães Pinto - MATOSINHOS HOJE - 14/6/2003

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