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6.1.11

CRÓNICA DA SEMANA

OS QUATRO CAVALEIROS DO APOCALIPSE

Tudo gira à volta do número quatro. Quatro eram os Três Mosqueteiros. Tal como aqui. Quatro pseudo adversários para um Presidente da República anunciado. Quatro gestores em full-time para um Banco falido. BPN. Uma sigla que quer dizer Banco Português de Negócios. Mas que também podia querer dizer Burros, Parvos e Néscios.

Já não é tanto esse modo sujo de fazer política que a generalidade dos contendores usa em Portugal. Depois de tudo o que vimos, sobretudo nos últimos dez anos, já nada admira. É a facilidade com que, quem tem telhados de vidro rachado, atira pedras ao – não hesito em dizer isto – mais sério e político que surgiu em Portugal depois do “25 de Abril”. Incluindo mesmo Sá Carneiro na comparação. Beneficiando, os adversários ou, para ser mais preciso, três deles, da memória curta das massas. Porque todos eles já estiveram alguma vez rodeados de, ou rodearam, gente sem escrúpulos. Para comentário da ignominiosa atitude desses três adversários de Cavaco Silva, não resisto a reproduzir aqui algo que de Cavaco disse (com conhecimento próximo de causa) em 22 de Janeiro de 1995, num semanário nacional, quando ele se preparava para abandonar o cargo de Primeiro-Ministro. Algo que nunca, a propósito dos três, poderia repetir:

“O Professor Cavaco Silva é um dos mais honestos políticos que já conheci. Não tem nada de demagógico. Mesmo quando, contra toda a evidência, se mostra optimista relativamente ao futuro próximo, ele cumpre com honestidade o seu papel. Nenhum de nós, em nossas casas, se mostra pessimista se a responsabilidade do futuro nos pertence… Não se lhe conhecem outras riquezas que não sejam as inerentes ao seu carácter. É sério, é honesto, é cumpridor. Quer queiramos quer não, fique ele ou vá-se embora, o Portugal de hoje é profundamente diferente do país que ele encontrou há dez anos atrás. Rasgaram-se horizontes, construíram-se infra-estruturas sociais sem conta, o país desenvolveu-se. Até a nossa ambição cresceu à medida desse desenvolvimento… Penso que o Professor Cavaco Silva se vai embora. Se o conheço bem, vai! E assumo o risco desta afirmação apesar de, na semana finda, me terem vindo contar que a família teria sido convencida a deixar de fazer pressão para que ele abandone. Boato que pareceu colher confirmação quando o PSD, na quarta-feira última, decidiu pedir aos Portugueses, de novo, uma maioria absoluta. E, se ele se for embora, devo dizer que o compreendo. De algum modo, ele tem sido o abono de família de muitos correligionários seus que, à sua sombra. Têm construído uma rede de influências que, subvertendo tudo, no dia a dia, acaba por atingir o próprio Governo. Natural, pois, que ele esteja saturado de tantas histórias escandalosas que, com maior ou menor verdade, têm atingido quem, sob o seu comando, serve. Caramba! O homem não pode estar em toda a parte ao mesmo tempo! E se, repetidamente, alguém aproveita, quando ele está de costas, para se governar, então penso que ele tem todo o direito a dizer “Entendam-se!” e de voltar as costas.”.

Gostava de poder dizer isto de todos os políticos. Para bem do meu país. Para bem do meu povo. Mas, infelizmente, não posso. Especialmente dos socialistas. Especialmente dos socialistas actuais. Ainda mais especialmente dos quatro cavaleiros do apocalipse que, como na história dos Mosqueteiros, são apenas três. Sobretudo porque nenhum deles teria a coragem de abandonar o tacho para não dar cobertura a mais manigâncias com a sua cumplicidade.

Mas há outros quatro. Os gestores em full-time do BPN. Mais especialmente, a solução engendrada para esse Banco, pelo Governo, pela Caixa Geral de Depósitos, devidamente secundada pela gestão do banco. Uma vez mais, a memória é curta. Todos se esqueceram já que esse distinto economista que é Miguel Cadilhe, um dos melhores ministros das Finanças que Portugal teve depois dos tempos de Salazar, disse, quando o Governo optou como optou no caso BPN. O que ele previu ir suceder, sucedeu. Ele disse que tinha melhor solução e o Governo negou-a. Só o futuro poderia dizer quem tinha razão. E disse, sabemos nós agora, que já estamos no futuro. Nenhum governante, nenhum gestor, gosta de ouvir dizer que agiu de modo burro, parvo, néscio. Embora isso possa humanamente acontecer. Ninguém é infalível. Mas pegarem num argumento como o do BPN para atirar a Cavaco Silva é uma desonestidade sem nome, é uma vilania, é algo que não dignifica, antes qualifica, quem o faz.

Obviamente, não estamos para aqui a discutir eleições. Essas estão decididas. Estamos a falar – mais uma vez! – de uma ética que abandonou Portugal. Podiam jogar contra Cavaco Silva alguns argumentos relacionados com a sua Presidência a findar. Há, obviamente, argumentos. Nem todas as suas decisões são apoiadas por toda a gente. Mas não chegava. Tais argumentos poucos efeitos provocariam no resultado que se advinha. Havia que jogar no campo em que a Esquerda é hábil. Lançar a nódoa da desonestidade sobre um dos mais sérios políticos que Portugal teve desde a Revolução dos Cravos. Havia que levantar a dúvida da moralidade. Havia que tentar fazê-lo aparecer aos olhos dos eleitores como um ladrão, como um burlão, como um artolas. Quem sabe? Podia ser que alguns acreditassem, minorando assim uma derrota que pode vir a ser vergonhosa para toda a Esquerda. Provavelmente, pensando estar a atirar pedras não jogaram senão boomerangs.

No meio de tudo isto, que faz a consciência crítica de quem carreia e comenta estes factos para a opinião pública? Podiam ser os guardiões de uma ética desaparecida, desmascarando e censurando todos os comportamentos dela esquecidos. Mas não. Parece que acham ser a mentira, o golpe baixo, a iniquidade, comportamentos justificados em política! Nestes termos, ainda se admiram de eu dizer que não haverá amanhã.
Quatro. Um número a recordar para estas eleições presidenciais que aí vêm. As eleições nas quais quatro adversários mais quatro gestores foram as pás que se atreveram a revolutear na lama, procurando salpicar quem nela nunca se meteu. Quatro. Tão pobres de argumentos, uns, como pobres de ideias, outros. E, para cúmulo, nem sequer querem que o “outro” fale de pobreza! De que se há-de falar, neste tempo, neste Portugal-micróbio, do tamanho da maioria dos seus agentes políticos?

Magalhães Pinto, em VIDA ECONÓMICA, em 6/1/2011

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