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5.1.11

MEMÓRIA

UM DIA ESPECIAL

Três décadas. Mais de promessas do que de realizações. Mas, ainda assim, três décadas que valeram a pena, estas que se sucederam à Revolução de Abril. Trinta anos em que muitos dos sonhos acalentados à nascença se foram, perdidos na voragem das lutas sociais e partidárias. Trinta anos, todavia, que nos libertaram de peias seculares. E que nos fizeram sentir, sobretudo, esta deliciosa sensação de viver em liberdade, sem temores que nos tolham o pensamento e a acção.

Cada um celebrará a efeméride de acordo com o que a Liberdade lhe trouxe. Em muitos lares, colhidos com desemprego na família, pode até haver alguma saudade do tempo em que havia trabalho para todos. Mas não podemos esquecer-nos de que esse trabalho para todos existente era pago com o pão que o diabo amassou. A minha celebração terá, este ano, contornos um pouco diferentes. É que faz quarenta anos - precisamente mais uma década do que a Liberdade - que me fui de abalada até à colónia da Guiné, para participar numa guerra de que apenas mal se conheciam, então, os contornos. Fui apenas um mais, entre quase um milhão de portugueses que conheceram a mesma sorte. Uma geração de heróis, essa, a dos anos sessenta. Heróis que partiam e heróis que ficavam. Entre estes últimos, especialmente as mães. Que, mergulhadas apenas nos seus queixumes íntimos, viam partir a carne da sua carne, sem terem a certeza de se voltariam. É para esses heróis, recordando o momento da partida, que deixo aqui um pedacinho do meu romance "Os Heróis e o Medo". É o meu abraço de fraternidade para todos esses heróis, ao sacrifício dos quais o Abril de há trinta anos colocou um ponto final.

"Chorai, mães. Que se vão. As vossas lágrimas são o mar onde eles vão navegar. Chorai, mães. Dai razão a Pessoa, acrescentai sal de Portugal ao mar imenso. Chorai, mães. Podem calar o vosso desespero, mas não podem secar a vossa tristeza. Chorai, mães. Que se vão. Dois anos não são nada, mas parecem, neste momento, a uma eternidade. Que Deus os traga sãos e salvos. Alguns não voltarão sãos, mães. Outros não voltarão salvos. Outros ainda nem sequer voltarão, mães. Por isso, chorai. Encharcai os vossos lenços com as lágrimas da angústia, com o rio de saudade que vos inunda já. Chorai, mães. Vão aqui seiscentos heróis. A maior parte não ficará a tingir as páginas da História. Nem sequer o vermelho vivo do seu sangue será tinta indelével para que isso aconteça. E, no entanto são heróis. Todos eles. Como se há-de chamar a quem, sem um queixume, abandona a sua vida para defender, dizem, a vida dos outros? Chorai, mães. Chorai pelos vossos heróis anónimos. O anonimato faz deles ainda mais heróis. Partem assim, já ides ver. Debruçados da amurada, a acenar lenços em resposta ao vosso aceno. Também os lenços deles estão encharcados. Mas as suas lágrimas não são queixumes. São já de saudade. Um soldado não se queixa. Um soldado só deve ficar verdadeiramente orgulhoso quando vai para a guerra, dizem-lhes. E eles acreditam. E partem assim. Orgulhosos. Mas quanta saudade embrulha já o seu orgulho! Chorai, mães. Que se vão. As vossas lágrimas são inesgotáveis. Vão durar, pelo menos, dois anos. Um instante transformado na eternidade. Para algumas, as lágrimas vão durar toda a vida. Que importa? É das vossas lágrimas, também, que a heroicidade deles é feita."

Magalhães Pinto, em MATOSINHOS HOJE, em 18/4/2004

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