A vida portuguesa dos tempos que correm está marcada por uma assustadora falta de ética. Políticos mentem. Empresários falcatruam. Instituições corrompem-se. Indivíduos governam-se. Começa a ser difícil encontrar algo em que se possa acreditar. Autênticos baluartes de seriedade do passado – os bancos, por exemplo – têm hoje uma imagem associada a bandos de malfeitores. Por injusto que seja neste ou aquele caso. Como vai longínquo o tempo dos homens dos negócios que se suicidavam por não poderem pagar uma letra na data do seu vencimento! Claro que, em todos os tempos, houve quem tentasse vigarizar o próximo. Mas havia a certeza de que, se apanhados, pagariam a elidida responsabilidade dos seus actos. Agora não é bem assim. Veja-se outro aspecto da falta de ética na vida social portuguesa, o caso de uma sentença sobre um acidente de viação que demorou trinta e três (sim, não é erro, é mesmo trinta e três) anos a ser produzida. O modo como a Justiça é aplicada em Portugal é um atentado à ética que deve revestir todos os actos públicos. A irresponsabilidade é geral. Gestores como os do Millennium/BCP escapam, quase impunes, à gravidade dos actos que praticaram. O Governador do Banco de Portugal escapa à responsabilidade de não terem os seus serviços velado pelo abuso da confiança dos cidadãos na sua competência. Gestores da coisa pública escapam às decisões erradas e, muitas vezes, malévolas que produzem. Políticos envolvidos em escândalos que, mesmo que se não consigam provar, poucas dúvidas deixam sobre a sua malignidade, atiram para as costas largas da perseguição política as acusações de que são alvo e seguem em frente felizes e contentes. Sucedem-se os factos a merecer a profunda censura dos cidadãos e não vemos ninguém ser responsabilizado por eles. É como se em Portugal apenas existisse a responsabilidade colectiva, numa negação de que o que colectivamente acontece é o somatório dos acontecimentos individuais.A consequência maior deste estado de coisas é o falecimento da esperança. Sem direito a missa de gala cantada. Apenas se escutam os choros de raiva das carpideiras e as orações fúnebres dos crentes. Portugal está dividido entre os que roubam e os que protestam contra os roubos. Todos assumindo a postura do mendigo. Pedindo. Todos pedem alguma coisa, desde o mais alto magistrado da nação até ao lixeiro da minha área. Sem esperança de receber o que quer que seja, diga-se. Pedem porque acreditam que, neste mundo onde a ética é ausente, “quem não chora não mama”. Atavismo bem português consubstanciado em aforismo popular. E, aos poucos, vamo-nos afundando no lamaçal do desespero. Temos décadas sem luz à nossa frente, sentimos mais do que pensamos. Não é a primeira vez que nos nossos quase novecentos anos de história atravessamos uma longa noite. Mas desta vez é pior. Não há independências para conquistar porque ninguém sobrevive independente no mundo de hoje. Não temos mundos para descobrir porque todo o mundo está descoberto já. Não temos patriotismos para adornar porque – e esse é o grande crime da Revolução de Abril – o patriotismo foi assassinado com toda a sua descendência. Que nos resta então?
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Excerto da crónica A ÉTICA - Magalhães Pinto - VIDA ECONÓMICA - 18/2/2008
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