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15.4.09

CRÓNICA DA SEMANA (II)

Entre as inúmeras mensagens que recebi dos Leitores, a propósito da CRÓNICA D’EL-REI DOM JOSÉ, uma houve que me censurava, sob o argumento de que “dizer mal é fácil”. Será que o meu pessimismo sobre o futuro do meu Portugal me estava a conduzir para a maledicência e tão só para isso? Afinal, governar é muito difícil e, tanto quanto parecia inculcar esse meu Leitor, deveríamos ter uma atitude de complacência diante daqueles que cumprem tão dolorosa como difícil tarefa. Meditei sobre o assunto. Quando alguém tem o privilégio de manifestar a sua opinião, há cerca de vinte anos, num jornal tão idóneo quanto a “Vida Económica”, tem um dever inalienável a satisfazer, qual é o de dar voz pública a, pelo menos, alguns dos milhões de portugueses que, sofrendo na pele os efeitos de uma boa ou má governação, não conseguem falar do que sentem senão nos escassos vinte metros em redor do seu universo pessoal. Dizia-me uma outra Leitora, a propósito da mesma crónica:

“Tenha pena que algumas opiniões do povo não sejam escritas ou faladas em grandes meios de comunicação para que todas as pessoas as pudessem ler. Neste fim de semana ao ler um jornal fiquei a pensar que tinha voltado 50 anos para trás (dado que tenho 70 anos), ao ler que em representação de El-Rei os acólitos tinham ido inaugurar um lavadouro e um chafariz (algures neste reino). Está a perceber o que me fez lembrar. Antigamente não se podia dizer nada mas sabíamos com o que se podia contar. Agora (pensamos que) podemos falar e quando dizemos algo que não agrada lá vem processo.”.

É isso mesmo. Uma das grandes obrigações do cronista é fazer com que as opiniões, que recebe e que encontram eco no que ele próprio pensa, sejam amplificadas, de modo a que todos os demais saibam como pensam alguns. Sempre com a esperança de que quem manda possa escutar essas opiniões e conheça o sofrimento que algumas das suas decisões causam na gente humilde, anónima, sem voz.

Acresce ainda outra coisa. Isto a propósito de dizer bem ou dizer mal. Será que os governantes apenas fazem mal? Será que entre as suas muitas decisões não encontraremos uma, uma só, que mereça um elogio? Claro que encontramos. Nenhum governante, por mais inábil que seja, erra sempre. Do mesmo modo que nenhum, por mais competente, acerta sempre. E, por aí, a certeza de que sempre encontraremos de que dizer bem e sempre encontraremos de que dizer mal, seja qual seja o governante que apreciemos. Mas, para dizer bem, lá estão os governantes. Que nos intoxicam a mente, chamando a nossa atenção para a mais inócua das suas medidas – o caso da inauguração do chafariz, citado pela nossa Leitora, é exemplar e deixa o “corta-fitas” Américo Tomás a milhas de distância. Além de que, quando um governante faz alguma coisa bem, não faz mais do que o seu dever e não cumpre mais do que o que prometeu. Há dois papéis a representar, bastante distintos. A César o que é de César e a Deus o que é de Deus é uma ideia já com milhares de anos. Ao governante, governar bem. Ao opinador, mostrar o que foi mal governado. E, com franqueza, do modo como o nosso país tem sido (des)governado, há muito mais assunto para dizer mal do que para dizer bem.

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Excerto da crónica DIZER MAL - Magalhães Pinto - VIDA ECONÓMICA - 15/4/2009

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