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5.5.09

CRÓNICA DA SEMANA

Há momentos impagáveis, na vida. Daqueles que nos fazem soltar uma sonora gargalhada. Que desopila. Que abre os pulmões e nos faz respirar melhor. Aconteceu quando regressava a casa, depois de um dia de trabalho. Lentamente, como permite o trânsito em hora de ponta. Talvez para relaxar, comecei a procurar, no rádio do carro, uma música que me agradasse. Mas, curiosamente, não foi música que fiquei a ouvir, mas a voz de alguém muito conhecido. O melhor é eu contar porque me ri à gargalhada, sozinho.

Em 1979, eu fui candidato a autarca, para a Assembleia Municipal de Matosinhos. Fi-lo nas listas do PSD e por elas fui eleito. Por isso, tive que fazer a campanha eleitoral. Mais, fui o responsável por essa campanha. E recordo que uma das coisas que mais nos amofinava, nesse tempo, era a publicação, pela Câmara Municipal, de boletins de informação. Esses boletins eram profusamente distribuídos por tudo quanto era sítio. Fora de campanha eleitoral, lá saía um de longe a longe. Mas, com o aproximar das eleições, era um vê se te avias. Estavam sempre a sair. E tinham uma característica que considerávamos, eu e os meus companheiros, malévola e que nos levava a protestar veementemente. É que, sendo os ditos boletins pagos com o dinheiro dos contribuintes, eles eram feitos de modo a fazer a propaganda do candidato socialista, então também presidente da Câmara, Narciso Miranda. Aquilo era um fartote de fotografias do candidato – dizíamos nós – ou do presidente da câmara – dizia ele – que nunca mais acabava. Recordo-me de ter contado, uma vez, num desses boletins, vinte e oito fotografias de Narciso Miranda. E de nada valia protestar. Dizia então o senhor que só estava a cumprir com os seus deveres de informar a população.

Pois bem. Na dita viagem de regresso a casa, quem eu apanhei a falar na rádio foi, precisamente ele. E a gargalhada saiu quando oiço Narciso Miranda a protestar, com mais veemência do que alguma vez eu o fiz, contra o facto de a Câmara estar a editar boletins de informação municipal. Segundo lhe ouvi, nessa intervenção radiofónica, era um crime a Câmara estar a gastar dinheiro dos contribuintes nessas coisas, quando devia ser gasto em coisas de mais utilidade para os cidadãos. A gargalhada foi espontânea. Não porque até não lhe reconheça alguma razão. Mas uma razão que ele não pode usar. Porque ele foi o professor, o mestre, o génio, a desperdiçar os dinheiros dos contribuintes para fazer propaganda pessoal.

No final da gargalhada, fui em busca de outra emissora. Com a convicção reforçada de que este modo de estar na vida não pode conduzir a lado nenhum. Como disse alguém célebre, pode-se enganar toda a gente uma vez. Pode-se enganar alguma gente muitas vezes. Mas não se pode enganar a maior parte da gente todas as vezes.

Crónica A GARGALHADA - Magalhães Pinto - MATOSINHOS HOJE - 5/5/2009

1 comentário:

JOSÉ MODESTO disse...

...OS SINAIS DO NOSSO TEMPO, NUM REGISTO DESPRETENSIOSO, BEM HUMORADO POR VEZES E SEMPRE CRÍTICO....

Saudações Marítimas
José Modesto