O cacique é, aparentemente, uma planta simpática. Abre os ramos com brandura, tenta surgir aos olhos de todos como uma planta boa. Parece sempre disponível para ouvir um problema das outras plantas, para resolver uma situação aflitiva, para fazer um favor. Mas é, sobretudo, a fazer favores que o cacique ganha adeptas. Chegam a venerá-lo, as que precisam dos seus favores. Atitude que o cacique favorece. Sem fazer favores, o candidato a cacique nunca chegaria a cacique. Não passaria de uma planta parasita, logo desaparecido no húmus das folhas apodrecidas. O cacique sabe que, se deixa de fazer favores, deixa de ser cacique. Por isso, alimenta a situação. Chega a provocar problemas de sobrevivência às outras plantas para, logo a seguir, com um favor, os resolver. Suscitando, assim, a gratidão e a dependência das favorecidas.O cacique gosta de se sentir uma espécie de planta raínha. Para isso, precisa de poder. O poder é a raiz do cacique. Nele bebe a seiva que lhe alimenta a folharia, a cacicagem. Sem poder, o cacique nunca passaria de erva rasteira. Com poder, o cacique pode ser uma árvore frondosa. Espécie de sombra para todos as cacicadas. É isso. O cacique é sombra, nunca é luz. Porque o poder é a sua raiz, o cacique não quer a terra lavrada à sua volta. Não vá algum lavrador mais diligente cortar a raiz que o alimenta. Por isso ergue, em seu redor, a distância conveniente, uma sebe de espinhos, aparentemente inultrapassável por quem quer que seja. Se virmos bem um pouco abaixo da superfície, vemos que a sebe de espinhos tem a mesma raiz que o cacique. Os espinhos são, por isso, parentes do cacique.
A raiz do cacique dá-se bem em terra seca. Ele gosta da dita dura, árida, mais de pedras que de areia. Mas nem sempre depende dele que assim seja. Chuvas e sol podem tornar fértil a terra onde vive. Aí, o cacique tem que fazer prodígios de equilíbrio ambiental. Tem que parecer que aceita a fertilidade da terra. Mas é como o chaparro. Tenta tornar árida, pelo menos, a terra à sua volta. Porque, se a dita deixa de ser dura, o cacique fenece, morre. Para fomentar a aridez, é imprescindível, ao cacique, matar à nascença qualquer planta concorrente que rebente à sua volta. E fá-lo com uma violência inaudita. Usa tudo o que tem a jeito para destrui-la. Fá-lo de noite. Pela calada. Muitas vezes, serve-se das plantas que se abrigam à sua sombra. De modo a parecer que não tem nada a ver com isso. Mas é ele que as arma. Quem lhes dá o pau para malhar a inocente planta. A qual só tem de demérito ter nascido próximo do cacique. A qual tem por mérito recusar a sombra do cacique e querer, ela própria, um lugar ao sol.
A verdadeira natureza do cacique só verdadeiramente se aprecia se uma dessas plantas resiste às pauladas e floresce com vigor. E ameaça partilhar o terreno onde o cacique está instalado. A natureza violenta do cacique surge, então, em todo o seu negro esplendor. Incapaz de vencer a planta, tenta cortar-lhe todas as fontes de seiva. Incapaz de secar a planta, tenta secar as fontes da seiva de que esta também precisa. Todas as enxadas lhe servem. E lavra, dia e noite, nesse intento. Pede ajuda às cacicadas. Tontas, muitas não sabem que fazer. Só sabem viver à sombra de algum cacique. E temem que o antigo desapareça. Umas, lutam com desespero para salvar o cacique e, assim, salvarem-se a si mesmas. Outras afastam-se para longe e ficam à espera de ver o resultado final da refrega, sem se comprometerem. Tontas, tanto umas como outras. Porque, envelhecido, o cacique irá morrer um dia, inexoravelmente. Porque não há força que resista a uma planta que deseja encontrar a luz, o sol.
Há, ainda, em Portugal, caciques. Sob pena de ficarmos com toda a nossa terra estiolada, árida, sem frutos, temos que varrê-los para o canto da História.
Crónica O CACIQUE - Magalhães Pinto - MATOSINHOS HOJE - 25/1/2004
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