
Tomemos um caso, ultimamente muito mediático cá no burgo. Tem-se discutido muito se a escolha do candidato a Presidente da Câmara pertence ao próprio candidato ou à estrutura do Partido a quem tal tarefa está estatutariamente cometida. É verdade que a cláusula estatutária é apenas uma regra. Uma espécie de lei. Não fosse isso e não teria sido necessário aprová-la para nada. Se tal norma valeu a discussão e a decisão de aprovação, foi porque foi entendido ser necessário cumpri-la, respeitá-la. Por detrás, um princípio ético inestimável em democracia: O de que o viver político não é uma confusão, tem ordem, tem autoridade, tem respeitabilidade. Tentar ultrapassar uma regra assim, com autenticidade e respeitabilidade democrática, à custa de esconsas manobras, de obscuras manipulações, não passa de pura trapaça. Definidoras, umas e outras, de caracteres nos quais o sentido da ética nunca esteve inscrito. A política não é, não pode ser, a arte de enganar os circunstantes. A política não é, não pode ser, a manipulação dos conceitos, das ideias, das atitudes, ao sabor das nossas conveniências. A política é, por definição, um serviço prestado aos outros. Não quando a gente quer, mas quando os outros querem. Tentar enganar o que os outros querem, fazendo-os crer que sabemos mais do que eles, é arrogância sem limites. Ninguém sabe mais do que todos os outros. É falta de ética.
Infelizmente, a maior parte da política que é feita à nossa volta está imbuída desta falta de ética. Pasmo com a desfaçatez de certas atitudes políticas que vejo à minha volta. Inacreditáveis manifestações de apego ao poder que me deixam perplexo. Não creio haver interesses nenhuns capazes de justificar tais atitudes. Sobretudo se tais atitudes vêm imbuídas de um ânimo de perseguição totalmente inadmissíveis num ambiente que se pretende democrático. Cometeria um crime sem nome se calasse a minha consciência e me não indignasse com a atitude tomada pela Câmara de Matosinhos em relação a este nosso jornal, afastando-o da informação do que na Câmara se passa. Sejam quais sejam as razões dessa atitude. Já que nem sequer quero ter por admissível que tal seria devido ao facto de algumas pessoas, neste nosso jornal, não apoiarem a recandidatura de Narciso Miranda à presidência da Câmara. Seria, se fosse essa a razão, de uma falta de ética das mais profundas a que me tinha sido dado assistir em toda a minha vida. Não quero acreditar que assim seja.
Crónica A ÉTICA - Magalhães Pinto - MATOSINHOS HOJE - 22/2/2004
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