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8.9.08

CRÓNICA DA SEMANA (I)

É um dos mais antigos e sujos truques da retórica. Já os Gregos o usavam. Hoje, cerca de quatro mil anos depois, também muitos políticos usam o mesmo truque, tendo em vista convencerem-nos de que são os mais perfeitos, os predestinados. É bom que todos fiquemos atentos ao que ouvimos dizer, não vá andar por aí alguém a usar o mesmo truque que, de tão velho, já tem barbas. Eu explico qual é o truque.

A Retórica é a arte da persuasão, do bem discursar, do bem falar para o Povo, tendo em vista levá-lo a aceitar quem a usa como sendo a melhor escolha. É o discurso do Poder ou de quem aspira a sê-lo. O retórico, aquele que pretende persuadir, geralmente usa argumentos que espera sirvam para convencer quem o escuta de que está a falar verdade. Em princípio, a retórica por ele usada devia apresentar argumentos que os seus ouvintes pudessem entender e, mais do que isso, submeter a um julgamento crítico que permitisse avaliar da razão do orador. Feito esse juízo, o ouvinte do retórico estaria em condições de escolher. De algum modo, a Retórica, se bem utilizada por quem fala e por quem ouve, seria o instrumento mais poderoso de uma democracia perfeita.

Mas muitos retóricos sabem que quem o ouve não está em condições de julgar o que ele diz. Ou porque o retórico é incompetente e não sabe exprimir as suas ideias, ou porque o retórico sabe que quem o ouve não compreenderia argumentos mais elaborados. E, então, usa o tal truque. Falando muito e dizendo pouco, sabendo, de um modo geral, quais são os elementos de agrado ou desagrado de quem o ouve, gasta a maior parte da sua conversa a dizer aquilo que sabe que quem o escuta pensa, de modo o colocar os ouvintes do seu lado. E faz isso mesmo que não possa fazer nada para evitar que a realidade seja aquela. Mas o objectivo é só despertar a simpatia de quem escuta. Nós simpatizamos sempre muito facilmente com quem diz aquilo que nós próprios pensamos. Feito isso, tendo conquistado a simpatia de quem o escuta, o retórico termina com o que lhe interessa. E quem ouve, estando numa onda de simpatia, aceita o que o retórico diz, ainda que seja o maior dislate ou o maior erro do mundo.

Exemplificando. Imaginem que eu quero ser Presidente de Câmara. Não tendo outros argumentos, eu começo por dizer a quem me ouve que a vida está cara, que as pessoas têm dificuldade em pagar a prestação da compra da casa, que os medicamentos estão mais caros, que se espera muito tempo por um cuidado de saúde. E o meu ouvinte já está a simpatizar comigo. É nesse momento que eu digo: pois faça-me presidente que eu vou resolver isso tudo. Embalado pela simpatia inicial, Você até é capaz de acreditar e votar em mim. E, todavia, eu não posso fazer nada para alterar as suas penas de que falei, porque isso não estará ao meu alcance quando eu for presidente. E Você terá sido enganado.

Acho que devemos todos fazer um esforço para não sermos enganados. Estando muito atentos.

Crónica O RETÓRICO - Magalhães Pinto - MATOSINHOS HOJE - 9/9/2008

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