
Vem isto a propósito da vozearia que vai por aí, colocando os juízes em causa. Uma vozearia que colheu, há poucos dias, o auxílio de autênticas vozes de tenor - como são, por exemplo, Mário Soares e Freitas do Amaral - com a aparição pública de um manifesto de preocupação pelas escutas telefónicas e pela prisão preventiva de presumíveis delinquentes. Algo que, na minha opinião, foi absolutamente inadmissível. Não tanto porque essas personalidades não tenham o direito de se preocuparem com assuntos de tal gravidade. Têm-no, tanto como qualquer outro cidadão. Mas sim pelo destempo da sua intervenção. O facto de, presentemente, a classe política ter sido atingida, precisamente pelas medidas contestadas por essas personalidades, aconselharia a maior contenção nas manifestações dos políticos sobre o assunto. Sob pena de todos nós ficarmos a pensar que, aos políticos, apenas os preocupa aquilo que pode atingir os seus interesses.
Acresce que, como liminarmente esclareceu o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa na sua intervenção analítica semanal, num canal de TV, a maioria das personalidades que subscreveram o referido manifesto foram as mesmas que, cada qual a seu tempo, alargaram o período de prisão preventiva e o âmbito das escutas telefónicas legalmente possíveis. De realçar que, na Assembleia da República, foi o Partido Socialista - acompanhado, aliás, por toda a esquerda e com o voto contra do PSD - que legitimou o alargamento das escutas telefónicas ao nível a que elas podem ser actual e legalmente realizadas. Escutas telefónicas contra as quais vocifera presentemente.
Alguém disse que ninguém é inteiramente neutro, imparcial, justo. Estou de acordo. Há apenas quem se esforce muito para o ser. Os juízes são, em minha opinião, alguns desses quem. Os políticos parecem não ser. É lá com eles. Mas não se queixem, depois, que o Povo pensa mal deles.
Crónica DEPOIS QUEIXEM-SE - Magalhães Pinto - MATOSINHOS HOJE - 27/7/2003
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