Noticiaram os jornais que o Estado se prepara para vender os edifícios públicos, nos quais produz os seus serviços, aos bancos. E, se os bancos não quiserem, fará essa venda à Caixa Geral de Depósitos (CGD). A qual, é também um banco. Com esta particularidade: pertence ao Estado. Isto é, pertence precisamente a quem lhe vai vender os imóveis. Depois, o Estado pagará renda pela utilização dos referidos edifícios.Deixemos de lado a provável absoluta necessidade que o Estado tem de fazer isso, a fim de que o Governo possa cumprir os critérios de equilíbrio das contas públicas impostos por Bruxelas. Quando o Estado recomeçou a vender por milhões empresas que lhe tinham custado tuta e meia nas nacionalizações sequentes à Revolução de Abril, disse-se que ele estava a vender os anéis. Se assim foi, então o Estado prepara-se agora para começar a vender os dedos. Num processo de autofagia que não terá fim. A seguir aos dedos, irão os braços, as pernas, a cabeça e, por fim, o coração. Mas deixemos isso. Concentremo-nos nas consequências curiosas a que a situação descrita - esta, a do Estado passar a ser realmente inquilino de si próprio, mas formalmente tendo um outro senhorio formal - vai dar lugar.
Em primeiro lugar, veja-se como se justifica agora o facto de o Governo ter acabado com a bonificação do crédito-jovem para aquisição de habitação própria. Era o que faltava! Se o próprio Estado - que é velho que se farta - não consegue viver em casa própria, porque haveriam os jovens de a ter? O respeitinho é muito lindo.
Depois, vamos, com certeza, ver o Estado a tornar-se sócio da Associação dos Inquilinos Portugueses. Se o não fizer, pode o Governo que o representa ser acusado de má gestão. E, tornado sócio, acho que todos nós, os inquilinos, devemos eleger o Estado como Presidente da Associação. Não é por nada. Mas é que o Presidente não pode exigir para ele o que os outros associados não têm. E, assim, ficaremos todos protegidos. Para não chamar à liça outros exemplos, lembremo-nos apenas de um. Como se sabe, o Estado paga tarde e a más horas. Isto é, nunca mais vai pagar a renda ao dia oito. Pagará a renda aí lá para o dia vinte e cinco, doze meses depois daquele a que a renda diz respeito. E, se assim for para o Estado, não há outro remédio. Tem que ser assim para todos. Ou somos consócios ou haja moralidade.
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Excerto da crónica O SENHORIO-INQUILINO - Magalhães Pinto - VIDA CONÓMICA - 24/8/2003
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