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2.3.09

SÓCRATES AUSENTE DO CONSELHO EUROPEU

Com a devida vénia, publicamos, na íntegra, um comentário feito no blog http://indigoeomar.blogspot.com/2009/03/nada-porreiro-pa.html sobre o assunto em referência. Não podíamos estar mais de acordo, não obstante a opinião dominante nos fazedores de opinião nacionais.

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Em 2004, poucos dias depois de sofrer um acidente de helicóptero, Leszek Miller, Primeiro-Ministro Polaco de então, contrariou as opiniões dos médicos para viajar até Bruxelas e participar no Conselho da Europa. Deslocando-se numa cadeira de rodas e com a maior parte do corpo coberta por gesso e ligaduras, o Sr Miller considerou essencial a sua presença para defender os interesses da Polónia nas discussões da futura Constituição Europeia. O seu estado físico foi certamente inédito na história dos Concelhos da Europa; contudo, o recurso a avultados esforços pessoais por políticos europeus para marcar presença em tais reuniões não é invulgar por estas bandas. Com efeito, poucos líderes desprezam o valor e potencial destes encontros para desbloquear uma União Europeia frequentemente atolada em questões burocráticas e complexos procedimentos de decisão. Os Concelhos da Europa, principalmente aqueles marcados extraordinariamente como é o de hoje, são onde efectivamente as decisões são tomadas e, por isso mesmo, imperdíveis.

Porém, José Sócrates decidiu não vir. Preferiu ficar em Espinho no Congresso do PS. Em sua defesa, disse que a cimeira foi apenas convocada há duas semanas – ao contrário do congresso –, que tinha uma carácter ‘informal’ e que se faria representar ‘com plenos poderes’ pelos Ministro de Estado e das Finanças, Fernando Teixeira dos Santos. Sobre qualquer ponto de vista, esta desculpa é inadmissível.

Em relação à questão temporal, essa faria sentido se o nosso primeiro-ministro tivesse marcado para esta data um importante assunto de Estado, como a visita de uma cabeça de Estado estrangeiro ou uma importante cerimónia nacional. Ou então, por ocasião uma crise ou tragédia inesperada. Mas não foram esses os casos. Sócrates ficou para comparecer num evento que nem sequer diz respeito ao Estado, mas sim ao seu partido político. Apenas por conta deste aspecto, poderíamos dizer que Sócrates hipotecou o interesse nacional pela estratégia partidária de aparecer no jornal da noite de Domingo oferecendo mais promessas e críticas brejeiras à oposição. Acresce a esta situação, que ainda esta semana o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, foi amplamente divulgado na imprensa internacional por criticar a cimeira do fim-de-semana passado em Berlim entre os líderes dos seis maiores países europeus. A ausência de Sócrates na cimeira de hoje, custou caro não só em termos da estima e reputação que outros líderes europeus lhe dedicavam, mas também na medida do prestígio internacional do nosso país. Mormente, a urgência da cimeira deve-se à rapacidade da crise económica e a ameaça do proteccionismo (sobre o qual escrevi aqui à dias), temas que Portugal tem certamente um interesse imperioso em discutir. Mas não, Sócrates considerou mais importante ficar no Congresso do PS até Domingo, onde aliás já tinha feito o discurso inaugural logo na Sexta-feira.

Em relação ao carácter ‘informal’ da cimeira, trata-se de mais uma maquinação demagógica deste governo. Como escreve a correspondente do Público em Bruxelas, Isabel Arriaga e Cunha, é exactamente nestas reuniões que os líderes europeus, libertos de discursos previamente estudados e acossados pela urgência de chegar a conclusões, mais decidem. E, por fim, em relação aos ‘plenos poderes’ do Ministro das Finanças, vamos acreditar que o nosso governo tem pouca experiência nestes protocolos internacionais (mesmo assim, uma demonstração cabal do seu amadorismo e falta de sensibilidade protocolar) e desconhece a diferença entre a representação do país por um Ministro ou pelo Chefe de Governo. Senhor José Sócrates, Senhor Luís Amado, Senhor Teixeira dos Santos, deixem então que lhes diga para que não restem dúvidas: não é nada porreiro, pá!

Todos estes aspectos seriam suficientes para que reprovássemos a atitude do grupo de cidadãos eleitos para representar o nosso país. Mas, para surpresa e desgraça de nós todos, eles conseguiram fazer pior: defrontado com as críticas da líder da oposição à ausência do Primeiro-Ministro, o Ministro Santos Silva, confesso mercenário do Governo, acusou-a de ter uma ‘visão empobrecida da democracia’. Para trás, ficou o transformar de um assunto de Estado numa crítica mesquinha e pessoal a Manuela Ferreira Leite. Para trás, ficou o uso em vão e fortuito da palavra ‘democracia’ como pedra de arremesso político. Para trás, ficou a oportunidade de debate, de crítica a erros eventualmente inevitáveis a qualquer Governo, sobre terror de ouvir opiniões contraditórias à linha seguida por José Sócrates. Hoje, a cadeira de Sócrates no Concelho da Europa ficou vazia, mas foi a soberania nacional, a democracia Portuguesa, e, acima de tudo, todos nós, quem ficou a perder. Imperdoável

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