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8.4.09

CRÓNICA DA SEMANA

Já foi há muitos anos. Era Primeiro-Ministro Francisco de Sá Carneiro. Estávamos, pois, aí por meados de 1980. Quando surgiu na praça pública uma notícia que deixou muitos portugueses escandalizados. Alguém fez constar que o Primeiro-Ministro tivera uma dívida no Banco Pinto e Sottomayor, da ordem dos 150.000 contos, dívida essa que, quando Sá Carneiro chegou a Primeiro-Ministro, tinha sido objecto de um arranjinho com o Banco, de modo a que ele não surgisse como devedor. Os jornais encheram-se com a notícia. Houve pichagens por tudo quanto era parede limpa, nas quais caloteiro era o mínimo que lhe chamavam.

Pois bem. O Primeiro-Ministro não esteve com meias medidas. Quando o ruído se tornou insuportável, reuniu todo o seu Governo à sua volta, diante das câmaras da televisão, e explicou aos Portugueses o que se passara com essa dívida, de modo a não ficarem dúvidas em ninguém. Para além do mais, o facto de ter reunido à sua volta todo o Governo, deixou ficar no ar que a declaração que ele estava a fazer tinha por testemunhas todos os seus pares do Governo.

Não consigo deixar de estabelecer o paralelo entre essa atitude de Sá Carneiro e aquela que se vem verificando com o nosso actual Primeiro-Ministro. Tudo quanto este nos disse é que estava montada uma campanha negra contra ele e que estavam enganados aqueles que o faziam se pensavam que o derrotavam assim. Ora, não é disso que se trata. Pode até acontecer que José Sócrates esteja inocente no caso do Freeport. Mas o seu comportamento e, o que é muitíssimo pior, o daqueles que o rodeiam, deixa muito a desejar e, se possível, aumenta as dúvidas que nos assaltam. Nunca se assistiu a tantos desmentidos de gente ligada ao PS, relativamente às informações que têm vindo a público. Chega-se a ficar com a sensação de que anda todo o país a inventar mentiras sobre os socialistas, a começar no seu líder. Quando nós – eu, pelo menos – só queria que ele me explicasse o que é que o fez correr tanto para modificar a lei e aprovar um empreendimento com laivos de ilegalidade, num tempo em que sabia já que ia sair do Governo. Isso, ele não nos explica, cara a cara, frente às câmaras de uma televisão qualquer, a fim de que possamos entender o seu comportamento e deixar de suspeitar que ele o fez para receber dinheiro.

Enquanto José Sócrates não assumir uma atitude frontal face ao fundo do problema, em lugar de andar, ele e os seus comparsas, a inventar uma teoria da conspiração, eu ficarei com enormes suspeitas sobre o seu comportamento.

Crónica UMA ATITUDE RARA - Magalhães Pinto - MATOSINHOS HOJE - 8/4/2009

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