Não metas o bedelho onde não és chamado, dizia constantemente o meu pai, naquela sabedoria de transmontano duro e prudente que era. E eu tenho passado a vida a fazer o contrário. Se o meu pai ainda andasse por aí, estaria neste momento a abanar incredulamente a cabeça e a deixar escapar, entre dentes, um comentário desiludido: este meu filho não tem cura. Mas é superior à minha vontade. Uma exigência de rigor e coerência que procuro impor a mim próprio e que, por isso, também exijo dos outros. Mesmo em áreas onde o meu rigor é de principiante e a minha exigência não passa do b-a-ba.Sei que não é fácil liderar os outros. Excluo a liderança forçada, naturalmente. A liderança não é uma pó que possamos comprar na drogaria para usar segundo as conveniências. Daí que os líderes devam ser escolhidos com critério, depois de uma profunda análise sobre as características dos candidatos a líder. Em democracia, os líderes não são impostos, são escolhidos. De onde resulta uma consequência devastadora. A culpa de termos um mau líder, seja onde for, pertence-nos exclusivamente. E, como a democracia impõe o respeito pelas escolhas, outra consequência negativa surge. O pior da escolha de um mau líder nem sequer é a escolha, é o dever de aguentar com ele durante todo o mandato para que o escolhemos. Salvo a prática de crimes, não há saída. É aguentar e cara alegre.
As ideias que, hoje, para aqui arrumo surgiram-me, de um modo sereno, enquanto assistia ao último “Prós e Contras”, no qual vi uma classe profissional – os advogados – darem um retrato fiel do que vai sendo o país neste momento. Uma imensa desordem, na qual ficou evidente que a classe está profunda e, talvez, irremediavelmente dividida. Não sou um grande admirador de Marinho Pinto, o Bastonário da classe. Fala muito por metáforas, quase sempre não concretizadas no particular, o que vai muito contra o meu gosto. Nem conheço suficientemente bem os meandros dessa actividade profissional, para poder avaliar da sua razão. Mas há dois ou três factos que fazem pender a minha opinião em seu favor:
- tem a legitimidade da eleição;
- ninguém o acusa de qualquer ilegalidade;
- está a procurar cumprir o programa com o qual foi eleito;
- algumas das suas acusações à organização da classe nós temo-las por verdadeiras.
Tanto deveria bastar para que o deixassem tranquilamente cumprir o mandato até ao fim. Naturalmente, criticando-o por todas as medidas julgadas perniciosas. Mas deixando-o prosseguir. Exigir a sua demissão, demais a mais com a veemência com que alguns dos seus adversários o fazem, é uma vergonha para quem devia estar na primeira linha da defesa dos direitos democráticos, precisamente os advogados. E fica ainda no ar um sinal mais preocupante. É que parece haver urgência em afastar um Bastonário que tem como uma das grandes bandeiras da sua actuação, precisamente, combater os interesses instalados.
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Excerto da crónica A DESORDEM - Magalhães Pinto - VIDA ECONÓMICA - 4/6/2009
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