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15.12.08

CRÓNICA DA SEMANA (I)

Distanciados na dimensão e no espaço, os acontecimentos passados em Atenas, na Grécia – a destruição massiva de bens em vingança por um jovem morto pela polícia – e na Casa Pia, em Lisboa – assassinato de um jovem de dezanove anos por outro de dezoito anos – tem muito mais de comum do que à primeira vista parece. Um e outro mostraram como existe, hoje, por todo o lado, nesta Europa envelhecida, uma juventude disposta a desafiar a autoridade tradicional e que não mede a dimensão dos seus actos, praticando-os com o mesmo desprezo pelas eventuais consequências com que pratica desportos chamados radicais. Cumpre analisar porquê isto é assim e que podemos fazer para que assim não seja, a fim de que o mundo não se transforme numa selva perigosa, sem rei nem roque.

Em primeiro lugar, estes acontecimentos surgem num quadro em que se foi dissolvendo toda a autoridade tradicional. Desde logo, em casa, com os pais demitidos da sua função educadora e disciplinadora. Um número crescente de pais entende que a sua função de progenitor se resume ao acto sexual que gera o filho. Logo que este deixa de mamar, ou vai para a creche, se os pais tiverem dinheiro para isso, donde transitará para a escola, ou começa a crescer ao abandono, se os pais forem pobres, donde transitará para a rua. Mais tarde, tanto uns como outros, se não tiverem a sorte do acaso, se lamentarão do caminho trilhado pelos filhos. Mas será muito tarde.

Em segundo lugar, a escola também se demitiu do seu papel de educadora. Hoje cumpre apenas – e muito mal, como vimos vendo – o papel de ensinadora. A disciplina quase não existe, os jovens – pelas muitas facilidades que encontram - não são preparados para o caminho recheado de dificuldades que se vai seguir na vida, não ganham a força de carácter que dá a força para resistir às contrariedades e a coragem para prosseguir a tentativa de vencer. E o resultado, quando se confrontam com as dificuldades crescentes deste mundo em que vivemos, é a revolta. Afinal, o mundo não é o paraíso que havia na escola nem a vida o mar de rosas sonhado.

Em terceiro lugar, a liberalização das sociedades e das economias, com a demissão dos Estados no plano de vigiar pela existência de um patamar mínimo de bem-estar para todos os seres humanos, faz com que cada vez mais tarde comecem os jovens a assumir responsabilidades e com que cada vez menos seres encontrem formas de vida decente.

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Excerto da crónica SEM RUMO - Magalhães Pinto - MATOSINHOS HOJE - 15/12/2008

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