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17.12.08

CRÓNICA DA SEMANA (II)

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Soam as trombetas. Sentam-se em redor da mesa, no final de um Conselho de Ministros relâmpago e urgente, o Primeiro-Ministro e três Ministros. É quase meio Conselho de Ministros frente aos nossos olhos. Objectivo: dar a conhecer-nos as medidas de socorro anti-crise engendradas pelos senhores. Necessárias, naturalmente. Muitas e boas, que os tempos vão mesmo muito maus. No olhar do Primeiro-Ministro, o sorriso de satisfação do Senhor que se apresta para mostrar aos súbditos quanto pode. Anuncia na generalidade e entrega aos Ministros a especificação na especialidade. Os Ministros gaguejam um pouco – um – e repete à exaustão o que já lhe ouvimos muitas vezes – outro – fala de coisas que mal entendemos – outro. Tudo medidas boas. Úteis. Urgentemente precisas. Rapidamente se chega ao fim. A lição ainda não estava bem estudada. A vacuidade concreta passeava por ali. Mas não era de censurar. Tudo quanto possa acalmar os espíritos temerosos é bem-vindo. Entre as medidas anunciadas, uma que me faz arregalar os olhos de espanto. O Estado vai pagar tudo quanto deve, rapidamente. Vai mesmo criar um balcão especial para os pagamentos, para que os credores não andem a calcorrear os corredores em busca do seu. Inédito, justo, tardiamente honesto mas honesto. Até este Dezembro grande parte. O resto até Março. A alma alegra-se-me. Não que eu seja também credor do Estado, que o não sou. Mas porque sei que isto é efectivamente uma grande ajuda às empresas na sua luta contra a crise. Intimamente, começo a decidir o meu voto para as próximas eleições. Caramba! Isto não é eleitoralismo!

Erro meu. Não olhei para a outra face da moeda. Erro mas não culpa. Porque a outra face da moeda só ma mostraram oito dias depois. E o forte impulso na luta contra a crise esboroou-se. Se não totalmente, em grande parte. Primeiro, não era o Estado que ia pagar dívidas vencidas, era o Estado Central. Autarquias, de grilo. Cerca de 1.800 milhões de euros que elas devem. Segundo, mesmo no Estado Central, só se pagam as facturas emitidas até 12 de Novembro e que devam ser pagas até 31 de Dezembro. Terceiro, mesmo no Governo Central, ficam fora do esquema Terceiro, fora do esquema as dívidas da Saúde, que é quem mais deve. Mais de 1.000 milhões de euros. Quarto, o pagamento já não é até final de Dezembro mas até 15 de Abril do próximo ano. Quer dizer, a montanha pariu um rato. A outra face da moeda é quase tão falsa como Judas. Revejo as imagens relativas ao primeiro anúncio feito. E aquilo que me parecia serem, naqueles senhores, sorrisos de satisfação pelo dever cumprido, parecem-me hoje os plásticos sorrisos de candidatas ao título de Miss Universo, esquecidas que, daqui a nada serão velhas e encarquilhadas como todas.

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Excerto da crónica A OUTRA FACE - Magalhães Pinto - VIDA ECONÓMICA - 17/12/2008

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