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10.12.08

CRÓNICA DA SEMANA

Já estive para abandonar o hábito muitas vezes. Devia preferir ser despertado pela irritante campainha do relógio. Mas não consigo subtrair-me ao fascínio do locutor de serviço da rádio que ouço. Entusiasmado todas as manhãs. Com uma energia que, das duas uma, ou se levantou com o desfalecer das estrelas ou toma centrum ao pequeno-almoço. Em princípio, tanta energia deveria ser incentivo para um despertar igualmente activo. Mas a primeira informação que vem é a de que, lá fora, faz um frio de rachar e chove a potes. A tepidez do leito ganha, assim, uma atracção quase magnética. O melhor é ficar abraçado pelo conforto dos cobertores – que, agora, já não são da serra, mas nórdicos – e aguentar o embate das primeiras notícias do dia.

Com uma desfaçatez enorme, o locutor atira-me com porcos para a cama. Irlandeses, diz ele. Para mim, tanto se me dá. Porcos há-os de todas as nacionalidades. Se é que tem significado falar de nacionalidades nesta Europa Unida que só se desune quando há que tratar de algo verdadeiramente importante. O que não é o caso dos porcos. Têm dioxinas a mais, diz ele. Acho que o termo não tem nada a ver com “dia”. Ainda que este, o dia, esteja a começar. Mas irrita-me que tanta coisa comece por sufixo parelha. Ele é o dióxido de carbono. Ele são as dioxinas suinícolas. Ele são as dioptrias. Ou a falta delas. Nunca entendi, quando o oftalmologista me diz que tenho três dioptrias em cada olho, se elas estão lá ou se deixaram de estar. Ele são os diospiros do meu quintal, que se espapaçam na relva sempre no dia antes em que vou colhê-los, deixando tudo numa lama amarela. Anoto mentalmente, sem ousar mexer-me para não arrefecer, ir perguntar ao dicionário o que são dioxinas. Verei mais tarde que são “substâncias tóxicas de determinados herbicidas, bactericidas e outros produtos químicos, prejudiciais à saúde”. Ó c’os diabos! Afinal a coisa é séria! E logo trinta toneladas. Para mim, trinta toneladas são uns tantos camiões cheios de porco. Começo a ficar preocupado e a dar as primeiras voltas na cama. É que não é só a saúde. E o cozido à portuguesa? E os rojões à moda do Minho? E a carne de porco à alentejana? E as febras da feira popular? E as papas de sarrabulho? E os chouriços de Vinhais? E o presunto de Chaves? Por esta altura, já estou de cabeça enfiada na almofada, tentando esconder as orelhas no meio do folhelho – que agora, também, já são só penas. Por felicidade, vem o membro do Governo botar faladura à rádio. Que não. Que não há problema. Porque afinal, além de termos esses excelsos rafeiros que são os agentes da ASAE a tentar localizar aquela porcaria toda, as trinta toneladas representam apenas 0,006% do consumo total de porco no país. Assim, numa relação directamente proporcional, só pode ser prejudicada a saúde de 600 portugueses. Um nico. Uma ninharia. Uma mesquinhez. Comparado com a BSE das vacas, com os nitrofuranos dos frangos, com a gripe das aves ou com os restaurantes chineses, isto dos porcos não é nada. É uma porcaria de 600 portugueses. Felizmente, o locutor muda de assunto.

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Excerto da crónica O QUOTIDIANO - Magalhães Pinto - VIDA ECONÓMICA - 11/12/2008

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