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11.12.08

MEMÓRIA

Não sei por quantos Leitores sou lido semanalmente. Porventura, meia dúzia deles, entre as dezenas de milhar de Leitores que este semanário tem. Mas são eles, os que me lêem, os sujeitos das minhas notas desta semana. Esta coluna, como todas as outras em todos os órgãos de comunicação social escrita, não vale nada se quem a lê não parar dois minutos a reflectir sobre o seu conteúdo. Com espírito crítico. Concordando ou discordando. Mas pensando. E, sobretudo, recolhendo da sua opinião pessoal - formada sobre o texto lido ainda que, eventualmente, não coincidente com a aí expressa - partir para uma acção mais esclarecida na sua intervenção social. Sem a acção social esclarecida de todos nós, não há comunidade. Não há vida social. Não há sequer o indivíduo. Não passamos de pedaços de lixo. A vogar no vazio ao sabor do vento.

Olhamos em redor e vemos o tecido social, de que somos os fios, a romper-se em todos os sentidos. Em todas as direcções. Já não são só os fundilhos que estão gastos. É o próprio forro, que usamos chamar de "alma", que está roto. É notória a agonia de todas as telas que fazem o fato que somos, todos em conjunto. Estão corrompidas. Não pela usura. Mas pelo mau uso. Somos, com nitidez, um fato em desagregação. É visível, com muita nitidez, a morte de todos os valores sociais. Um atrás do outro. A família. A escola. A solidariedade. A honestidade. O escrupuloso cumprimento dos deveres cívicos. Cremo-nos apenas detentores de direitos. E julgamos todos os outros apenas sujeitos de deveres. Berramos, à direita e à esquerda, pela excelência dos outros. Esquecendo-nos de que a excelência tem sempre que começar em cada um de nós. O vocábulo excelência foi substituído pelo da exigência. Cega. Surda. Muitas vezes mais que surda. Absurda. Pare aqui um pedacinho para pensar, meu Caro Leitor. Que segurança - física, cívica, moral - acha que tem? Nenhuma, não é? Se tem filhos ou netos, aprecie a educação que estamos a dar-lhes. Péssima, não é? Se ainda se interessa pela coisa pública, que qualidade política tem ao seu dispor? Baixa, não é? Sendo a Justiça o seu último recurso, quanto confia nela? Pouco, não é? Se está atingir a terceira idade, que qualidade espera para ela? Nenhuma, não é? Quando está doente, como é que é tratado? Não é tratado, não é? Se precisa de um serviço assegurado pelo Estado, como é servido? Mal, não é? Há corrupção à sua volta? Claro que há. Conhece alguém que não pague os seus impostos? Claro que conhece. Abre os jornais ou liga a televisão e só vê notícias sobre tudo isto, não é? Claro que é.

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Excerto da crónica LEVANTA-TE E CAMINHA - Magalhães Pinto - VIDA ECONÓMICA - 12/10/2003

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