A INFORMAÇÃONão sei o que sucederá com os meus prezados Leitores. Mas comigo sucede muitas vezes. Ficar perdido no meio de uma impetuosa corrente de informação, tantas vezes contraditória e sem objectividade. Se há um esforço que o cidadão actual deve fazer, para não ser levado pelas águas de tal corrente, é abordar a informação que recebe com a atitude de quem se confronta com o desconhecido e, por isso, algo receosamente e cautelosamente.
Economista por formação, recordo sempre aquela história de dois indivíduos que faziam uma viagem de balão, por cima das nuvens e que, quando desceram abaixo delas, verificaram não saber aonde se encontravam. Eram só campos de trigo, a perder de vista. Felizmente, andava neles um lavrador a ceifar o trigo. Necessitados de informação, os dois indivíduos acercaram o balão do lavrador e um deles gritou, lá do alto:
- Pode dizer-nos onde estamos, por favor?
E o lavrador respondeu:
- Fácil! Estão mais ou menos a doze quilómetros da cidade mais próxima, ali para noroeste…
Comentou então o indivíduo que não havia falado:
- Não vale a pena, pá! O tipo é economista…
- Economista?.. Como é que sabes?
- Fácil. Deu-nos uma informação cuidada, precisa, mas absolutamente irrelevante para a nossa situação…
Não conta a história se o lavrador era realmente economista ou não. Mas a história coloca em relevo algo que constitui, hoje, o maior problema da gestão da informação. A selecção da informação relevante.
Durante milénios, o mundo da política viveu subordinado a uma princípio tão simples quanto imutável:
- O segredo é a alma do negócio.
E tanto assim era que o sucesso dos políticos estava intimamente relacionado com o acesso à informação. Quanto melhor acesso, maior sucesso. Nada demonstra melhor a justeza da afirmação do que a perpetuação familiar do sucesso político nos tempos da ditadura.
Contudo, o mundo conheceu, nos últimos anos e ao nível da informação, uma evolução considerável. Vivemos numa aldeia global com a informação de todos para todos. Quase nada é segredo, hoje. Catadupas de informação desabam sobre a nossa consciência. Informação útil e inútil. Informação correcta e incorrecta. Informação parcial e global. Informação relevante e irrelevante. Informação verdadeira e informação falsa. Há mesmo, hoje, uma indústria de criação de informação dirigida à consecução de objectivos previamente determinados.
E, subitamente, o sucesso, durante tanto tempo associado ao acesso à informação, passou a estar intimamente ligado à capacidade para seleccionar, de toda a informação disponível, a útil, a correcta, a global, a relevante, a verdadeira. Quem sabe escolher, sabe efectiva e eficazmente. Quem não sabe, ou não cuida de, escolher, pura e simplesmente não sabe. E não há maior drama para a política do que ser servida por pessoas que não sabem, que não conhecem, que não estão informadas. Com uma agravante, segundo dizia um amigo meu, algo cinicamente, ao apreciar o relativo insucesso português.
Dizia ele que os políticos se dividem em dois grupos. Os que sabem e os que não sabem. Quanto aos que sabem, nenhum problema; eles são factor de sucesso. O problema reside nos que não sabem. Mas há que, primeiro, distinguir algo neste grupo dos que não sabem. Porque ele se subdivide em dois subgrupos. O das pessoas que não sabem e sabem que não sabem. E o das pessoas que não sabem mas não sabem que não sabem. Quanto às primeiras, as que sabem que não sabem, nenhum problema; elas podem aprender e poderem vir a conhecer o sucesso. No segundo subgrupo é que está, na sua inteireza, o problema. Porque nunca saberão. E, agravante mor, esses, geralmente, vão para líderes políticos.
Cínico que fosse, este pensamento, a verdade é que chama a atenção para algo muito importante. A humildade com que devemos aproximar-nos da informação, neste tempo em que ela desaba em montanhas sobre nós. O conhecimento global da Humanidade é imenso e a parte que desse conhecimento global cada um detém é atómico. E, sobretudo, deve cada um evitar a sobranceria de desprezar a pequena parcela de conhecimento detida por outrem, por mais desprezável que ela possa parecer. Tendo sempre presente que há dois processos para adquirir o conhecimento. Ou a aprendizagem sistemática e rápida pela via científica ou a aprendizagem lenta, mas segura, feita através da experiência. Não resisto a contar-lhes um episódio passado comigo mesmo, que constituiu uma lição de humildade que jamais esqueci.
Pressionado por uma vida profissional e política intensa, decidi ter que dar a mim próprio uns breves momentos de tranquilidade em cada semana. E, para isso, escolhi experimentar uma actividade que me parecia relaxante. A pesca. Se bem o pensei mais depressa o fiz. Passei pelo estabelecimento apropriado, comprei uma daquelas canas de pesca pequenas, extensíveis, os respectivos acessórios, linhas, anzóis, chumbos, destorcedores, etc., e fui à pesca. Depois de comprar, ali junto ao local de pesca, as necessárias minhocas, claro. Era a primeira vez, não sabia nada de marés. De modo que só estava eu, ali na Foz do Douro, junto às palmeiras, para me iniciar. Armei a tenda, preparei os instrumentos, enfiei a minhoca no anzol e fiz o lanço. Um estalido seco, seguido de um ruído sibilante, avisou-me de que a linha se havia partido. E lá se foram para o meio do rio o chumbo e o anzol com o respectivo isco. Pacientemente, voltei ao início, novo chumbo, novo anzol, nova minhoca, armei lanço e, zás. Novo estalido, novo ruído sibilante e lá se foi outro conjunto. Decididamente, eu tinha sido enganado. Tinham-me vendido material de segunda, aproveitando-se do meu estatuto de principiante. Mas nunca fui homem para desistir. Nova dose de paciência, novo aparelho completo, e preparei-me para fazer novo lanço. Foi nessa altura, quando estava prestes a lançar pela terceira vez, que ouvi uma voz infantil atrás de mim.
- Vai rebentar outra vez… - disse a voz.
Voltei-me. Um miúdo com não mais de sete anos, de aspecto humilde, olhando-me meio divertido, era o autor do presságio.
- Vai rebentar outra vez? Como é que sabes? – disse eu, meio agastado com a petulância do miúdo, a querer ensinar um graúdo, ainda por cima licenciado e já bastante experiente.
- Porque você não destrava a linha!.. – concluiu ele.
Eu olhei o meu equipamento. E só então descobri que havia, no carreto, um acessório que prendia a linha e que era necessário afastar para lançar o aparelho. O que eu não fazia. E que, por isso, quando eu lançava, a linha não corria e a inércia do chumbo fazia o resto.
Calei-me. Afaguei os cabelos despenteados do miúdo, fiz como devia ser e nunca mais fui mal sucedido ao ir à pesca. O puto tinha dado uma lição ao senhor doutor.
Não posso senão recomendar uma atitude humilde na abordagem da informação, nos dias que correm. Humildade para ouvir, para ler, para aprender, para ficar bem informado. E para submeter tudo ao crivo de um espírito crítico que, cada vez mais, tem de ser mais esclarecido.
Magalhães Pinto, em VIDA ECONÓMICA, em 4/11/2010
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