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21.8.08

MEMÓRIA

O Senhor Presidente da República fez um inflamado discurso, incitando-nos a sermos patriotas. Não ao jeito antigo, de bandeira, hino, pátria e família. Mas sim patriotas modernos. E por aqui se ficou. Modernos. Só que eu não sei o que isso é. Embora entenda a atitude do Senhor Presidente. Acho que ele acredita ter uma missão a cumprir, num país deprimido, descrente, sem confiança. E aqui está. Penso que o que ele nos pediu foi para termos confiança. No futuro. Porque, sinceramente, não encontro uma única razão para sermos patriotas neste momento. Especialmente, modernos. Não estamos em nenhum programa de exploração espacial. Não inventamos nada de novo. Enquanto comunidade, estamos desunidos. Grande parte de nós não paga os seus impostos. Não temos pneumonia atípica, é certo; mas continuamos à espera de uma saúde que nunca mais chega. Qualquer dia há uma reforma do ensino para cada um dos alunos que temos. A Bolsa anda pelas ruas da amargura. Há muitos desempregados. Há mais ainda que estão empregados mas que não trabalham. Temos líderes presos sob suspeitas fortíssimas de terem cometido crimes às dúzias. Assistimos a palhaçadas vindas do Brasil, nas quais a principal comediante é portuguesa. Com mais direito de antena do que a humilde invenção portuguesa que ganhou um prémio en Genebra. O hino nacional ainda é o mesmo. A bandeira nacional ainda é a mesma. O território ainda é o mesmo. As tradições ainda são as mesmas. Bolas! Onde as razões modernas para o patriotismo? Se até os europeus se preparam para nos sacar as milhas de mar que tínhamos como nossas? Só encontro as razões antigas.

Sabe Deus quanto me custa dizer isto. Amo o meu Portugal mais do que tudo. Tenho orgulho de ser Português. Gostaria de poder juntar a minha voz à do Senhor Presidente. Porque o ideal que ele apregoa é, teoricamente, belo. Porque estamos muito necessitados de ser patriotas. Porque é sempre preciso dar um farol a quem anda perdido e o patriotismo é um dos mais rutilantes. Mas, curiosamente, quando a mim mesmo pergunto porque razão tenho orgulho de ser Português, só me lembro da História do meu Povo. Só me lembro das tradições do meu Povo. Só me lembro da época das conquistas que fez este meu país. Só me lembro dos feitos das Descobertas. Só me lembro do génio de meia dúzia de Portugueses, com Camões à frente. Só me lembro da beleza da minha Língua, uma das mais bonitas do Mundo. Só me lembro dos meus antepassados. Mas tudo isto apenas faz um patriota à moda antiga.

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Excerto da crónica UM MODERNO PATRIOTISMO - Magalhães Pinto - VIDA ECONÓMICA - 14/6/2003

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