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1.8.08

OS HERÓIS E O MEDO - 331º. fascículo


(continuação)

O terceiro zás saiu já o Couceiro estava estampado no chão, desalojado da tribuna improvisada por oportuno empurrão. Mas a inspiração era geral. O alferes Lourenço, intelectual presumido, que os intelectuais verdadeiros arranjam sempre modo de fugir às guerras, resolveu dar uma amostra dos seus dotes oratórios. E a todos pediu silêncio. Pedido unanimemente indeferido. Sem se perturbar, o alferes amarrou um guardanapo à volta do pescoço, arregaçou as mangas, estendeu o braço, hirto, como vira fazer ao Marlon Brando no filme “Júlio César”. E perorou. “Amigos! Cidadãos do meu país! Meus compatriotas! Vim aqui para vos dizer que a guerra está morta e bem morta. Graças à honradez com que cumpristes a vosssa tarefa, acabou-se o inimigo. Claro que não queria estar na vossa pele. Se não há inimigo, de que vão viver os profissionais da guerra? Ó “Estica”, põe aí mais um copo, senão quem estica sou eu… Não me admirava nada que, à falta de inimigo, se ponham a brincar às guerras uns com os outros!… Amigos! Cidadãos do meu país! Compatriotas! O inimigo acabou. Porque não chorais? Ainda ontem poderíeis cometer actos de bravura, conquistar citações e honrarias, fazer jus a medalhas e condecorações, ganhar direito à parada da glória… Está quieto, pá! Deixa estar aí o guardanapo, que é mais realista!… ver o vosso nome nas páginas da História… E agora, amigos? Sem inimigo, que ides fazer? Enlatados, daqui até Lisboa, ides ter tempo de chorar a vossa triste condição de anónimos, perdidos nos confins de uma serra com metro e meio de altura. Se ainda tendes lágrimas chorai! Tenho dito. Chaquespira da Silva”.

(continua)
Magalhães Pinto

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