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4.8.08

OS HERÓIS E O MEDO - 343º. fascículo

(continuação)

Tanta coisa sem explicação! Onde a razão para esta alegria? O regresso não é tudo. Acabam de fazer uma guerra, deviam estar tristes. Na guerra, mata-se e morre-se. Mata-se legalmente e morre-se como um vira-latas. Estremece-se com a fome e enlouquece-se com a sede. Sofre-se quando se não morre e sofre-se quando se mata, matando para não morrer. Apesar de, às vezes, morrer ser o menor dos males. Que o diga o “Viseu”. Na guerra, a revolta cresce, surda, ineficaz, impotente para condicionar a oleada máquina que a produz. Revoltados ou não, os homens sujeitam-se. Sempre. Hoje e amanhã, se houver amanhã. A vontade é quebrada a cada instante. Alguém diz: vai! E os homens vão. Sempre. Cordeiros com pele de lobo, esfaimados da morte não desejada, nem a sua nem a dos outros. Na guerra vai-se, voluntariamente, à procura do imperceptível gesto do dedo que assina, qual deus omnipotente em dia de juízo final, a sentença fatal, irremediável. Merda para a guerra! Loucura organizada no arraial dos interesses mesquinhos. Loucura inexplicável. Ao menos nesta loucura, aqui, na Emília Sá, sentia-se a alegria de quem deixa o manicómio. Por conseguir guardar a sanidade duma gargalhada, depois disto tudo, camaradas, também sois heróis. Juro-vos que eu, também, hei-de conseguir sair vivo desta merda, para soltar uma saudável gargalhada, audível do Minho ao Algarve. No máximo, audível até aos Açores.

(continua)

Magalhães Pinto

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