(continuação)Naquele dia, vinha do gabinete do comando quando, ao passar pelas prisões, ouviu uma voz de mulher a chamar por si. Tornou, espreitou pelas grades, com curiosidade. Era Regina, a “mulher-grande” da tabanca nas imediações de Mansoa.
Todas as tabancas têm um chefe. Administrador plenipotenciário da vida comunitária. É, habitualmente, o homem mais rico do aldeamento, riqueza medida em mulheres, vacas e sabedoria. O dinheiro, o papel-moeda, carece de significado numa economia simples, de troca directa. O “homem-grande” administra a justiça da aldeia e as suas decisões salomónicas raramente são discutidas. A tabanca da Regina é a única conhecida onde, em lugar de um “homem-grande, ” existe uma “mulher-grande”. Admira não haver mais. Porque a mulher é a base da vida social nas tabancas. É a mulher que, tendo e criando os filhos, assegura a perenidade da comunidade. Devendo trabalhar como um negro, a mulher da tabanca conciliou engenhosamente os cuidados maternais com a necessidade de subsistência. Transporta os filhos às costas, escarranchados sobre os quadris protuberantes por séculos de hábito. Assim, ficam as mãos e os braços livres para o trabalho. Um ligeiro desvio lateral, que a bem segura capulana admite, põe os seios da mãe ao alcance da criança na hora de amamentar. Quando trabalham na bolanha, pela baixa-mar, semi-enterradas no lodo sujo mas fértil, as mulheres têm reminiscências alentejanas. Dobradas sobre o arrozal, em filas de vinte e trinta, avançando lentamente, vão deixando para trás, a espaços regulares, os pés de arroz arrancados ao sequeiro nessa manhã. As crianças nelas encavalitadas, observadas de longe, dão ao conjunto o insólito aspecto de tartarugas em sincopada e penosa marcha. Quando o arroz for colhido, ainda serão as mulheres a proceder ao seu descasque, martelando o pilão no almofariz durante horas a fio. E serão elas, ainda, a cozinhá-lo. Algumas são pescadoras. Quase nuas, metidas na água até à cintura, manejam, com cuidado, o cesto de rede suspenso de um arco enorme, na tentativa, muitas vezes vã, de apanhar desprevenidos minúsculos peixes, a espadanar à sua volta, atraídos pelo movimento suave das intrusas nos seus domínios. De vez em quando, o cesto sai da água com uma ou duas moedas de prata saltitante, que maiores não são os peixes capturados. Depois de secos, serão delicioso acompanhamento, dizem os nativos, do arroz cozido de todas as refeições.
(continua)
Magalhães Pinto
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