(continuação)O facto de ali existir, na tabanca da Regina, uma “mulher-grande” não modifica a estrutura e as relações sociais. Nem ela sabe explicar porque é que, no meio dos Jaló e dos Samba, dos Mussá e dos Có, o seu nome é tão invulgarmente latino. Marias havia muitas, fruto de séculos de actividade da igreja católica, Mas Regina, que se soubesse, era só ela. Alta, preta retinta, solícita e compreensiva, Regina era estimada por todos, na tabanca e fora dela. Era particularmente querida dos soldados de quem era lavadeira. Não só porque a roupa era entregue sempre a tempo e impecável, mas também porque, quando algum perdulário gastava o pré na jogatina e ficava sem os míseros trinta pesos para pagar o trabalho mensal da lavadeira, ela se limitava a sorrir, abanando a cabeça e dizendo: “Ai, branco branco! Bô ca tem cabeça! Paga no mês que vem…”. Regina não tinha homem. O que tivera, há muito morrera, levado pela guerra. Tinha três filhos, dos quais o mais velho, catorze anos bem desenvolvidos, era o seu favorito. Haveria, um dia, de ser “homem-grande”, herdando-lhe o cargo como ela o herdara do homem.
(continua)
Magalhães Pinto
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