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23.7.08

MEMÓRIA

Há um bom par de meses, levantei aqui a questão do relacionamento dos resultados bolsistas das grandes empresas cotadas com as remunerações pagas aos seus administradores. Tem algo de imoral saber-se, ainda que não muito concretamente, que os administradores de um qualquer grande grupo empresarial têm remunerações principescas, enquanto os investidores de Bolsa nessa empresa, afinal os seus accionistas, afinal os patróes dos ditos administradores, vêm a cotação dos seus títulos perder valor, paulatinamente, meses a fio. De algum modo, os administradores de tais empresas são mais ou menos como um trabalhador qualquer, membro de um sindicato radical qualquer, que se está nas tintas para o estado dos negócios e da empresa, desde que receba o dele.

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Os pequenos accionistas lutam com uma desvantagem de monta. Não têm voz forte nas Assembleias Gerais. Cada um de per si, não conseguirá nunca influenciar o destino das empresas em que investe. De algum modo, e porque assim é, adquirir uma acção de capital numa empresa que conta, por vezes, com milhões e milhões de acções, é o mesmo que adquirir um vigésimo na lotaria. Pode ser que dê, pode ser que não dê. Só que, aqui, a sorte não é determinada pelo acaso. É determinada pelos actos, pelas decisões, de um punhado de indivíduos que, para isso, são lautamente remunerados. Vão os negócios como vão. Seja a cotação na Bolsa qual seja. O referido artigo do "Público" mostrava vários casos de desajuste na marcha entre os resultados e as remunerações. Do qual ressaltavam dois exemplos que considero didácticos. Por um lado, o Grupo Sonae. No qual, para uma redução das cotações da ordem dos 55%, as remunerações dos administradores tinha sido reduzida de 42%. E, por outro, o caso do BCP, no qual, para uma redução das cotações da ordem dos 52%, as remunerações apenas tinham sido reduzidas de 9% e, mesmo assim, pela diminuição do número de administradores, devido à saída intempestiva, há cerca de ano e meio, de alguns deles. Um fenómeno, este, que, quando comparado, não deixa de dar que pensar. Já que sabemos estarmos, num caso, perante um Grupo de controlo familiar - a Sonae - e no outro, face a algo que se aproxima bastante da sociedade anónima pura.

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Excertos da crónica IMPARÁVEL - Magalhães Pinto - VIDA ECONÓMICA - 27/5/2003

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