Pesquisar neste blogue

21.8.08

OS HERÓIS E O MEDO - 359º. fascículo

(continuação)

Inicialmente, não acreditaram neles. Foram longamente interrogados, batidos, torturados, espremidos de todas as informações possuídas. Já desesperavam de que o inferno não tivesse fim quando, no meio duma sessão, aparecera um indivíduo desconhecido. A sua autoridade sobre os demais era notória. Ordenara a suspensão do espancamento, fizera duas ou três perguntas e mandara-os recolher às moranças onde os guardavam. Não mais foram interrogados. Algum tempo depois, voltaram a ver o desconhecido. Foram conduzidos à sua presença por um guerrilheiro armado. Vieram a saber, depois, chamar-se Ieró. Perguntara-lhes se estavam dispostos a integrar o exército libertador da Guiné e Cabo Verde. Falara-lhes longamente dos seus deveres para com a Pátria e da necessidade de expulsar o invasor daquele chão bem amado, que era seu. África é nossa. África é nossa. África é nossa. Guiné é nossa. Guiné é nossa. O português vai deixar o nosso chão, mais tempo ou menos tempo. Esse pessoal tropa que anda aí não tem culpa. A culpa é de quem manda pessoal tropa para aqui, para o nosso chão. Quem é que trabalha o arroz, quem é? Quem é mulher na bolanha, a espetar arroz no chão, quem é? E quem fica com o arroz, depois, quem é? Quem arranca mancarra da planta, quem é? Porque é que Casa Gouveia, lá do Bissau, fica depois com mancarra toda? Homem da tenda não tem culpa não. Ele manda mancarra para a Casa Gouveia porque Casa Gouveia manda nele. Quem fica com a vossa vaca, quem é? Pois, dá patacão. Para quê o patacão do português? Quando português se vai embora, nós ter o nosso patacão. Quem dá chibatada no nosso irmão, quem é? Quem manda nosso irmão capinar a estrada, quem é? Mesmo quando irmão está doente, quem é? E quem dá com palmatória na mão, quem é? Quem matou nosso irmão, tanto, lá junto ao navio, no Pidgiguiti, quem é? Tu quer mandar no nosso chão ou não? Tu quer continuar na vida de escravo?

(continua)
Magalhães Pinto

Sem comentários: