O discurso do Presidente da República, Professor Cavaco Silva, pronunciado nas comemorações da Implantação da República foi, porventura, o melhor de toda a sua carreira política. Conciso, sem perder tempo em rodriguinhos de construção oratória, o Presidente abordou tudo quanto era importante abordar. Fê-lo sem rodeios e de um modo tão claro, que podemos reduzir o conteúdo do que disse a três ideias fundamentais:- Portugal vive uma crise das maiores da sua História recente, que é agravado pelas condições internacionais;
- Numa situação destas, é necessário que quem governa não perca de vista os mais desfavorecidos da sociedade, cuidando deles;
- Mas temos saída se nos empenharmos, empenho que exige que se fale verdade ao Povo e que não sem embale esse mesmo Povo na música celestial da ilusão.
Três ideias que são as linhas essenciais de um programa de Governo que seria agora de extrema utilidade. E que mostram o grave erro que os Portugueses cometeram ao começar a retirar-lhe o seu apoio, para o entregarem a esse coveiro das Finanças Públicas que foi António Guterres.
Do tudo quanto o Presidente disse, retive uma frase crucial para os tempos que correm. A propósito da necessidade de falar verdade aos Portugueses.. Disse ele:
“A verdade é fonte de confiança. A ilusão é fonte de descrença”, disse ele.
Parecem palavras com destinatário conhecido. Quando olhamos para trás e recordamos os truques de mágica em que o actual Governo tem sido pródigo e, simultaneamente, olhamos para nós e vemos a descrença que grassa no seio dos Portugueses, só podemos pensar que a responsabilidade maior do estado de espírito actual do Governo tem fonte conhecida. Se quiséssemos encontrar um exemplo, o que se passou recentemente com a distribuição de computadores é paradigma. O computador “Magalhães”, em distribuição às crianças das escolas, é, sem dúvida, algo que virá a beneficiar, em muito, as gerações que têm hoje menos de vinte anos. Mas não resolve nada, absolutamente nada, a todos aqueles que têm hoje mais de vinte anos. E, todavia, quem ouviu o Primeiro-Ministro nestes últimos tempos sabe a enorme tentativa de varrer do nosso espírito as reais preocupações que nele trazemos, criando a ilusão de que o computador vai resolvê-las a todas. Ora isto é, precisamente, o que o Presidente da República quis dizer com aquela sua frase. Menorizar, dersta maneira, os Portugueses, só instala neles a desilusão.
Acho que não vai acontecer nada. Como sempre, as judiciosas observações do Presidente vão cair no saco roto do Primeiro-Ministro, Se tivesse dúvidas, o facto deste ter dito, no final do discurso, que o Presidente e ele estavam em perfeita sintonia quanto a este aspecto confirma a minha desilusão.
Crónica O DISCURSO - Magalhães Pinto - MATOSINHOS HOJE - 6/10/2008
1 comentário:
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