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7.10.08

CRÓNICA DA SEMANA (II)

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Cena I

De Bruxelas, e após uma reunião dos Ministros das Finanças da Europa do Euro, o nosso rigorosíssimo Professor Teixeira dos Santos junta os arautos, faz soar as trombetas e manda anunciar aos quatro ventos:

- Os depósitos dos Portugueses estão garantidos!

Cena II

Em Lisboa, o nosso amantíssimo e despachadíssimo Primeiro-Ministro reúne segunda equipa de arautos e remanda anunciar aos oito ventos, isto é, incluindo os colaterais:

- Os depósitos dos Portugueses estão garantidos!

Cena III

Já em Lisboa, o primeiro personagem desta peça em quatro actos precisa:

- Alargamos a garantia dos depósitos dos Portugueses para 50.000 euros; e pensamos mesmo que é exagerado.

A verdade tinha durado vinte e quatro horas. Como verdade política que é e para este Governo, até tinha sido um primor de longevidade. Não é difícil, todavia, antever uma quarta cena desta peça verdadeira, se porventura a garantia dos depósitos chegasse a vias de facto:

Cena IV

Um terceiro personagem, de segundas linhas, equivalente a Director Geral ou pouco mais, a esclarecer:

- Claro, 50.000 euros para a totalidade dos depósitos de cada agregado familiar!

***

Não podíamos ter exemplo melhor. Com esta descoordenação da verdade – perdoe o Leitor o eufemismo – o mais provável acontecer seria a descrença. Pelo menos da minha parte.

Todavia, eu não sou dos que acompanha a histeria colectiva, designadamente ao nível dos órgãos de comunicação social e de muitos comentadores. Acredito piamente que a Economia e as Finanças andaram muito, enquanto ciência, desde há quase cem anos para cá. Existem, hoje, instrumentos de intervenção muito mais apurados do que então. E, numa economia ainda em crescimento, embora aproximando-se da recessão, não há razão para que Portugal, por todas as razões que apontei aqui a semana passada e por muitas mais, esteja assim aflito.

Só há algo que pode verdadeiramente precipitar uma crise maior. Deixarmo-nos dominar pelo pânico e deixarmos de agir racionalmente. Tenho conhecimento de que algumas pessoas, designadamente mais idosas, foram a correr a este ou àquele banco levantar as suas economias. Um pouco tolamente. Se porventura sucedesse o que os levou a tal atitude insensata faria com que o dinheiro que tivessem nos colchões rapidamente perdesse valor. Logo, pautar o comportamento pelo pânico, neste momento, é justamente provocar aquilo que se teme. Uma boa razão para, inclusivamente, o Poder cessar tantas afirmações daquilo que já foi afirmado. Não há que dar mais garantias. Estão dadas. Se alguém quiser agir tolamente, que o faça a expensas suas.

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Excerto da crónica O DISCURSO - Magalhães Pinto - VIDA ECONÓMICA - 8/10/2008

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