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8.10.08

MEMÓRIA

Há um bom par de meses, levantei aqui a questão do relacionamento dos resultados bolsistas das grandes empresas cotadas com as remunerações pagas aos seus administradores. Tem algo de imoral saber-se, ainda que não muito concretamente, que os administradores de um qualquer grande grupo empresarial têm remunerações principescas, enquanto os investidores de Bolsa nessa empresa, afinal os seus accionistas, afinal os patrões dos ditos administradores, vêm a cotação dos seus títulos perder valor, paulatinamente, meses a fio. De algum modo, os administradores de tais empresas são mais ou menos como um trabalhador qualquer, membro de um sindicato radical qualquer, que se está nas tintas para o estado dos negócios e da empresa, desde que receba o dele.

Nem de propósito. Num dos seus últimos suplementos de Economia, o jornal "Público" trazia um extenso e meritório trabalho, a dar conta de que as ideias que então anotei já estavam ou estão em curso pelo mundo capitalista fora. "Da Europa à América, pequenos e grandes accionistas estão a manifestar-se contra as políticas remuneratórias "milionárias" dos conselhos de administração das grandes empresas cotadas", assim iniciava aquele diário o trabalho referido.

Há uma pequena diferença entre a situação relatada e a que se vive em Portugal. Com efeito, o artigo cita "pequenos e grandes accionistas" como sendo os actores da revolta dos investidores. Não é bem o caso em Portugal, onde não há notícia de os grandes investidores estarem preocupados com tal situação. Mais. Apesar das tentativas que a CMVM tem feito para dar mais transparência às remunerações dos condutores das empresas cotadas, tem encontrado substancial oposição. E como os grandes accionistas não fazem nada, não impõem aos conselhos de administração de que também são patrões, um comportamento mais transparente, havemos de convir que estão de acordo com o comportamento dos ditos administradores.

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Desde logo, em Portugal só há uma dúzia de empresas cotadas que podem, à nossa escala, ser consideradas grandes. No entanto, é nessas que se concentra a esmagadora maioria dos negócios efectuados em Bolsa. O que quer dizer que, não obstante estarmos, em Portugal, a falar de um micro-universo quando comparamos com uma dessas Bolsas dos países mais desenvolvidos, o fenómeno não deixa de, mantidas as proporções, ser importante à nossa escala. Se corrermos o olhar pela lista das empresas cotadas, vemos que realmente relevantes são:

- Grupo BCP
- Grupo BES
- Grupo BPI
- Grupo Brisa
- Grupo Amorim
- Grupo EDP
- Grupo Jerónimo Martins
- Grupo Mota Engil
- Grupo Sonae
- Grupo Telecom

Os pequenos accionistas lutam com uma desvantagem de monta. Não têm voz forte nas Assembleias Gerais. Cada um de per si, não conseguirá nunca influenciar o destino das empresas em que investe. De algum modo, e porque assim é, adquirir uma acção de capital numa empresa que conta, por vezes, com milhões e milhões de acções, é o mesmo que adquirir um vigésimo na lotaria. Pode ser que dê, pode ser que não dê. Só que, aqui, a sorte não é determinada pelo acaso. É determinada pelos actos, pelas decisões, de um punhado de indivíduos que, para isso, são lautamente remunerados. Vão os negócios como vão. Seja a cotação na Bolsa qual seja. O referido artigo do "Público" mostrava vários casos de desajuste na marcha entre os resultados e as remunerações. Do qual ressaltavam dois exemplos que considero didácticos. Por um lado, o Grupo Sonae. No qual, para uma redução das cotações da ordem dos 55%, as remunerações dos administradores tinha sido reduzida de 42%. E, por outro, o caso do BCP, no qual, para uma redução das cotações da ordem dos 52%, as remunerações apenas tinham sido reduzidas de 9% e, mesmo assim, pela diminuição do número de administradores, devido à saída intempestiva, há cerca de ano e meio, de alguns deles. Um fenómeno, este, que, quando comparado, não deixa de dar que pensar. Já que sabemos estarmos, num caso, perante um Grupo de controlo familiar - a Sonae - e no outro, face a algo que se aproxima bastante da sociedade anónima pura.

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Excerto da crónica IMPARÁVEL - Magalhães Pinto - VIDA ECONÓMICA - 27/5/2003

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