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14.7.08

CRÓNICA DA SEMANA (I)

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Por meio da História, sabemos o que eram os escribas. Os faraós, senhores de um poder imenso sobre o seu povo, não sabiam ler nem escrever, geralmente. Razão pela qual tinham necessidade de arranjar quem soubesse. Os escribas eram, muitas vezes, escravos que os faraós, nas suas guerras contra povos mais evoluídos, tinham feito prisioneiros. Embora vivessem na corte dos grandes senhores, não passavam de escravos. Vertiam, para o papel, o que o seu senhor lhe ditava, a troco do prato de lentilhas que lhes era servido. Não há memória de algum escriba que tenha atingido a fama. Pelo contrário, muito do que conhecemos da vida dos seus senhores analfabetos, está plasmada na História da Humanidade para não mais morrer. Quando olho a estátua do Escriba, no Museu do Louvre, uma imagem nua, vestida apenas de um saiote, de olhar perdido ao longe, fico a pensar com os meus botões em como deveria ser triste a vida de um escriba no Antigo Egipto. Seguramente, os escribas teriam talento para escrever coisas da sua ideia. Mas a subordinação ao dono cerceava-lhes qualquer veleidade de iniciativa própria. Era, a meu ver, uma escravidão mais dolorosa do que a dos outros escravos que, de sol a sol, carregavam as pedras com que haviam de ser construídas as pirâmides e punham no chão os ramos que os seus poderosos donos haviam de pisar nos desfiles de glória.

Hoje estamos muito longe desses tempos. Mas devemos todos saber que os escribas não acabaram. Andam por aí, a escrever para os seus donos. A escravidão não é apenas uma questão de conquista e de aprisionamento. Pode ser-se escravo apenas porque se tem disponibilidade mental e intelectual para sê-lo. Se isso acontecer, não faltará quem, sendo incapaz de ler e escrever, se aproveita do talento do escriba transformado em escravo. Para a História ficarão os escritos do escriba mas com o nome do seu dono. De alguma maneira, não sei de quem tenho mais pena, se do escriba-escravo, se do faraó poderoso que lhe rouba o talento. Enfim. A vida é muito mais dolorosa do que as aparências indicam.

Excerto da crónica O ESCRIBA - Magalhães Pinto - MATOSINHOS HOJE - 14/7/2008

1 comentário:

MAGALHÃES PINTO disse...

Foi colocado aqui um comentário em termos pouco usuais e malcriados para este blog que, ainda por cima, se ocultava cobardemente por detrás do pseudónimo ANÓNIMO. Embora se suspeite qual a origem, uma vez que este blog contém a identificação dos IP's de todas as pessoas que o visitam. E pode fazer-se a comparação entre a hora da visita e a publicação do comentário. Foi removido, naturalmente.

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