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15.7.08

CRÓNICA DA SEMANA (II)

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Se os governantes estivessem realmente preocupados em gerir bem a nossa – NOSSA! – casa nunca decidiriam envolvê-la em obras faraónicas, de que o TGV e o aeroporto de Lisboa são apenas exemplos. Li algures – Alexandre Rodrigues, revista Pessoal da Associação Portuguesa de Gestores de Recursos Humanos, Julho/2008 – uma frase lapidar, retrato cruel, mas nítido, da atitude vigente nos nossos governantes, sem excepção: “As culturas de mais baixo desempenho económico caracterizam-se por tentar compensar o seu real atraso através de obras de fachada exageradas com o objectivo de passarem a ser desenvolvidas e ricas pelo menos na aparência”. Exemplar pensamento. Sardinhas comidas com casaco de peles vestido. Quem apenas tem dinheiro para viver num T0 não pode comprar um T5, com garagem e piscina. O bem-estar supremo é o possível para o rendimento disponível sem malbaratar os recursos no luxo que custa os olhos da cara.

Se os governantes estivessem verdadeiramente interessados no bem-estar do seu povo tratavam de lhe satisfazer as necessidades mais básicas. Numa aldeia da selva africana é muito mais produtivo um poço de água do que uma fábrica de automóveis. Sem as necessidades básicas satisfeitas todo o dispêndio noutras coisas é improdutivo. E os pobres – numerosos, como acabamos de saber, no nosso Portugal – são gente que não tem as necessidades básicas satisfeitas.

Se os governantes estivessem realmente interessados na criação de condições de melhor futuro, cultivavam um grau de exigência grande nas crianças e nos jovens. Investiam seriamente na Educação. Investimento que, nem de perto nem de longe, se traduz na distribuição de computadores a toda a gente para acesso à Internet. De nada vale tal acesso feito por iletrados. Diverte mas não forma. A distribuição de computadores pode ser excelente pelo número de fotografias que fazem do governante um Pai Natal de ocasião, mas não é, nem de perto nem de longe, a condição primeira para potenciar os recursos futuros. Virá a ser num estádio posterior. Mas é a cultura da exigência que realmente cria cidadãos responsáveis e cumpridores.

Se os governantes quisessem realmente combater a corrupção, não desperdiçavam uma oportunidade de lutar contra ela. Não silenciavam um homem sério que quis dar uma machadada no vil fenómeno, como foi o engenheiro João Cravinho. E disponibilizavam à investigação e à Justiça recursos para um combate mortal.

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Excerto da crónica SE... - Magalhães Pinto - VIDA ECONÓMICA - 17/5/2008

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