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O caso dos nitrofuranos nos frangos é exemplar. Bastou acompanhar o caso com atenção para vermos, até à saciedade, em que alhadas andamos metidos. Uns, criam e alimentam pintos com o que recebem dos outros. Não têm culpa. Outros só dão pintos e fornecem rações que adquirem já feitas; e não são responsáveis pela engorda, exactamente aquilo para que servem os nitrofuranos. Não têm culpa. Outros fornecem as rações que lhes pedem; só fazem as rações mas não as dão aos frangos. Não têm culpa. Vem o Presidente da Associação e, mesmo antes da contra-análise, diz que a culpa é do Governo. E assusta-nos com o anúncio dos desempregados que vai haver. Fica no ar a impressão de que vale mais morrermos de cancro do que estar desempregado. Quási chegamos a agradecer aos trapaceiros por evitarem o aumento do desemprego. Vem a Oposição e diz que a culpa é do Governo. Sente-se no ar o desejo de uma nova edição das "vacas loucas". Mas, desta vez, parece que o Governo agiu rapidamente, ao contrário da outra. Mas a culpa continua a ser do Governo, segundo todos eles. Se não por outra razão, porque o Estado não foi capaz de controlar a tempo. Pois! É fraco, já reconheci. Por força não só deste Governo, mas por força de todos os anteriores. Especialmente dos que entenderam fazer estádios de futebol e centros culturais antes de podermos ter condições para viver em segurança. Curiosamente, desta vez, só Bruxelas é que não entendeu que a culpa fosse do Governo. Um banho de água fria. Ah! bendito embargo, que não veio! E os trapaceiros? Tudo para a prisão, grito eu. Os das rações. Os dos pintos. Os da engorda. Grito em vão. Chega-se ao cúmulo de, depois da primeira análise e antes da colocação em quarentena, algumas explorações terem sido esvaziadas de frangos. Quando lá foram por novas amostras, nem um frango para inglês ver. Talvez por pura inocência! Que digo eu? Prisão? Não será a pena de morte que merece quem andava assassinando os seus compatriotas aos bocadinhos? Caramba! Isto é, pelo menos, tão grave como os casos de pedofilia! E, seguramente, mais grave do que o "caso Amostra" - a que muitos insistem em chamar o "caso Moderna".
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Excerto da crónica FRANGOS NO CHURRASCO - Magalhães Pinto - VIDA ECONÓMICA - 11/3/2003
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