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9.7.08

OS HERÓIS E O MEDO - 317º. fascículo

(continuação)

Um hospital de campanha é uma linha de montagem em produção contínua. A produtividade é alta porque não há padrões de qualidade a satisfazer. Pode bem acontecer que a peça em falta neste sobre naquele. Ou que seja arrumada para um canto, sobressalente inútil facilmente substituível. Mas é soberbo o trabalho destes cirurgiões. Cosendo aqui, cortando acolá, aparafusando este, serrando aquele, eles não se poupam a esforços para devolver à procedência pedaços de gente capazes de, pelo menos, comer e pensar. Que grande experiência aqui adquirem! Por aqui, sim, por aqui a Pátria vai ficar a ganhar. Nem numa vida inteira, os cirurgiões do meu país adquiririam a experiência que ganham na guerra, em escassos dois anos de comissão. Tratem-me bem desse rapaz! Eu gosto dele! Tenho a certeza de que, se Portugal inteiro o conhecesse, Portugal inteiro gostaria dele também. Só os cobardes que fugiram a este inferno não gostam de gente como o “Viseu”. Talvez porque são os “Viseus” desta guerra que ficarão a atestar, enquanto viverem, a sua cobardia. Tratem-me bem desse rapaz. Nem que seja para fazer companhia à legião dos sem-futuro, vindos de toda a Guiné pendurados num fio de vida. Não terão outro futuro senão o de atestarem a imensa coragem desta juventude sacrificada.

(continua)

Magalhães Pinto

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