(continuação)António notou o plural de modéstia naquele “ambos” da educação da filha. Mas não disse nada. O tempo não era para recriminações. Recomendou à mulher cuidado na transmissão da notícia. Era melhor ser ela a dar a notícia e não ele. Para evitar situações eventualmente irreversíveis. Seria bom dizer-lhe ser a morte, para um militar, um destino sempre provável e honroso. Se José António tinha falhas no seu passado, a sua morte e o modo como ocorrera, redimira todas essas falhas. Tinha alguns dias para o fazer. Os serviços não eram lestos no anúncio de notícias assim. Dois dias depois, Amélia telefonou. Rafaela recebera muito mal o recado. Culpava o pai pelo sucedido. E, há pouco mais de uma hora, tinha feito uma mala e abandonado a casa. Dissera à mãe, em modos desabridos, que os não queria ver mais. Desfeita em lágrimas, Amélia repetiu o queixume da falta que ele fazia, agora, em Lisboa. António Soveral procurou tranquilizá-la. Iria no próximo avião militar a Lisboa, tentar explicar à filha que, na guerra, ninguém tem culpa.
(continua)
Magalhães Pinto
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