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9.11.09

MEMÓRIA

ACREDITAR


Vivemos tempos muito difíceis. Um a um, vão caindo os valores morais, os ideais, os princípios, os nossos ídolos, os esteios da sociedade. Já há muito poucas coisas ou pessoas nas quais acreditemos. Aceitamos as rupturas, às vezes com incredulidade, outras vezes com indiferença. Encolhemos os ombros a cada tombo de algo ou alguém, como se não fosse nada conosco. Rompem-se as malhas de que somos tecidos enquanto comunidade, acrescentando a desconfiança com que nos olhamos. Um por si e todos por ninguém, é o nosso lema. O cepticismo o nosso refúgio. A descrença o nosso horizonte. E, no entanto, precisamos de algo em que acreditar. Sem crenças, o Homem é um barco à deriva, ao sabor de ventos contraditórios, sem porto que demandar, sem terra a que aportar. Sem esperança, somos nados-mortos. Sem crenças, somos uma espécie de feras à solta, sempre a ver como podemos abocanhar o melhor bocado, sem solidariedade, sem amizade, sem fraternidade.

Os fazedores de opinião - que assim são chamados aqueles que, como eu, têm o enorme privilégio de exprimir a sua opinião junto do grande público - reflectem os tempos que corremos. É muito difícil encontrar, hoje, alguém a dizer bem do que quer que seja. Falar mal, seja do que for, parece ser o ofício de cada um de nós. Eu também assim tenho sido. Mas apercebo-me que, insensivelmente, estou a contribuir para resultados contrários aos desejados. Querendo contribuir para que o mundo em que vivemos melhore, sinto ter vindo a contribuir para a derrocada da crença e da esperança. Porventura, um modo de mal agradecer este privilégio que tenho. Mas também sinto a necessidade de acreditar em alguma coisa. Eu quero acreditar na Justiça. Quero acreditar na bondade dos governantes. Quero acreditar que as decisões de quem toma as decisões são boas e que eu é que estou a ver mal. Quero acreditar na solidariedade entre os homens. Quero acreditar que os casos de maldade de que vou tendo conhecimento são apenas excepções à regra. E que todos andamos por aí a tentar ajudar, a tentar construir, a tentar melhorar. Quando já não tivermos nada em que acreditar, a Vida chegou ao estado terminal. Não pode ser! Temos de fazer algo para mudar este estado de espírito. Por isso é que, nos próximos tempos, não vou dizer criticar ninguém. Vou procurar encontrar coisas boas, pessoas boas, decisões boas, acontecimentos bons, relativamente aos quais me seja possível falar bem. Vou ser comedido na crítica e fácil no elogio. Mesmo que tenha a percepção de estar a ser relativamente injusto. Porque, no estado a que chegamos, é preferível ser injusto incrementando a esperança do que ser justo desfazendo-a.

É neste estado de espírito que abordo dois acontecimentos quase simultâneos, duas declarações públicas dos governantes, relativamente às quais sinto uma enorme vontade de aplaudir. Tanto maior essa vontade quanto tais declarações correspondem ao inflectir de outras decisões aqui sobeja e vigorosamente criticadas.

A primeira dessas declarações pertenceu ao Ministro José Arnaut e teve por objecto as críticas que se vinham ouvindo na praça pública sobre a promoção do EURO/94 na Fitur. A Fitur realiza-se em Madrid e é a maior feira europeia de turismo. A promoção do europeu de futebol- da responsabilidade do organismo oficial do ICEP - era quase invisível, ao que se diz. Confrontado com as críticas, o Ministro afirmou mais ou menos isto: "A promoção do EURO/2004 pertence às entidades que organizam o evento. Não gastaremos um euro dos Contribuintes na sua promoção. Só gastaremos o necessário para que Portugal possa aproveitar dele". Aplausos. Essa, sim, a atitude que os Contribuintes esperam de quem tem o dever de administrar o seu (deles) dinheiro. Por decisões passadas, Portugal já gastou couro e cabelo com o futebol. Pelo que representa de mudança de atitude, pela sensatez da decisão, pela clareza da afirmação, o Ministro merece todo o apoio. Que lhe não faltará. De todos os que estão ansiosos por ver uma melhor administração da coisa pública, pelo menos.

A segunda decisão governamental a merecer aplauso, quase a coincidir com a primeira, foi a Ministra das Finanças, Manuel Ferreira Leite. Anunciou ela "o adiamento por quatro meses da entrada em vigor dos novos pagamentos especiais por conta, a fim de dar tempo ao Governo para apreciar as reclamações que têm surgido a esse propósito". Aplausos, Senhora Ministra. Não é propriamente o erro que é censurável, tão humano ele é. E, como os demais, Vossa Excelência é "apenas" humana, embora a Sua tarefa pareça, muitas vezes, sobrehumana. O que verdadeiramente merece censura é a persistência no erro. Que, neste caso, foi evitada. Não me canso de aplaudir. Só falta, agora, receber, nos pagamentos especiais por conta, uma percentagem na margem bruta, em lugar de ser nas vendas. Ou então - o que será muito mais difícil - estudar bem todos os sectores e fixar um pagamento especial por conta para cada um deles. Ou, ainda, distinguir as empresas financeiras, as industriais e as comerciais.

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Excerto da crónica de Magalhães Pinto, publicada em VIDA ECONÓMICA em 5/2/2003

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À distância, isto conta-nos das histórias que os políticos nos contam...

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