(continuação)Segundo se sabia, o “Quico” era o último de seis irmãos, nascido por descuido já nos prenúncios da menopausa. O que deixara o pai a olhar para ele de través enquanto fora crescendo. Distanciado uma boa meia dúzia de anos do irmão e da irmã mais próximos. Tivera a meninice e as brincadeiras da praxe. Correra atrás dos pintos. Fizera judiarias às galinhas. Assustara os coelhos. Fora aos ninhos, ver as pedrinhas. Concluíra a primária a custo. Não tanto porque fosse burro. Faltava-lhe o espírito de iniciativa, aquele nada de ousadia reveladora do carácter de cada um. Depois, alguns anos gastos a tentar acertar, ingloriamente, com o esguicho da vaca mungida no balde de boca larga reservaram-lhe o carácter e acentuaram-lhe a gaguez. A professora, duplamente perdida entre os miúdos da primeira até à quarta e no isolamento daquela escola da Beira, mal o notara. Nos exames, o medo de falhar e justificar mais um encolher de ombros do pai enfastiado, embotava-lhe o raciocínio, congelava-lhe o saber. Ficava ali, especado e bloqueado, a olhar o examinador, como se este estivesse a falar chinês. A custo acedeu ao exame do segundo grau. Feito duas vezes. Concluído à segunda. Crescera arrimado às tarefas das leiras familiares. Que o pai, humildemente obedecido, programava todas as manhãs. Medrara. Como medra a giesta. Um pouco ao acaso. Começara a namorar a Chica do Zé da Burra já tinha feito os dezoito. Num dia de romaria. Quando ambos foram à vila, pelas festas, ela de camioneta com os irmãos, ele sózinho, de bicicleta. Uma tímida ajuda ao subir para o carrossel-oito, dois olhares envergonhados, ida à missa nos domingos seguintes. E ficaram conversados.
(continua)
Magalhães Pinto
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